domingo, maio 03, 2026

Alto Minho, artigo de 30-04-2026

Memória

Passaram 52 anos desde que a Revolução dos Cravos saiu à rua. Hoje, graças ao acesso ao fundo da PIDE, disponível na Torre do Tombo, e ao esforço incansável de investigadores, como José Sousa Vieira, começamos a conhecer a história de dezenas de limianos que sofreram a prisão política. É um trabalho de paciência e rigor que merece o nosso maior aplauso, pois a informação que nos chega é o que nos impede de cair na armadilha da memória seletiva.

Viver sem memória é perigoso. O desconhecimento do que foi a ditadura permite uma romantização que abre caminho a decisões futuras perigosas. Precisamos de saber quem foram estes homens e mulheres para garantir que o nosso tempo não volta a ser como o deles. Muitos foram nossos vizinhos, alguns conhecemos desde sempre, mas nunca esse assunto foi referido. Pode ter sido por pudor, mas o esquecimento não pode prevalecer.

Seria oportuno que o Município de Ponte de Lima promovesse um levantamento exaustivo dos presos políticos limianos. Que se dignifiquem as suas vidas, vidas iguais às nossas, mas marcadas pelo sacrifício da liberdade e por um estigma que, mesmo após o 25 de Abril de 1974, levou alguns a viverem a sua prisão com uma injusta vergonha. 

É fundamental que as gerações futuras conheçam estes rostos e que a comunidade limiana não se esqueça de quem, sem pretender o heroísmo, teve a coragem cívica de escolher o que era justo.


Mesmo sem Internet


Não havia internet, muito menos redes sociais, mas, ainda assim, conseguiram juntar dezenas de jovens. Iniciá-los na ciência, na experiência química, nos primeiros passos do ambientalismo. Hoje a marca é conhecida apenas por ser uma rádio local, mas o GEICE - Grupo de Estudos e Investigação de Ciências Experimentais - foi muito mais. Sem fundos públicos, nasceu em Ponte de Lima, logo depois da revolução, tornando-se um espaço marcante na formação de várias gerações de jovens limianos e altominhotos. Foi nesse âmbito que a ideia das Lagoas de Bertiandos e São Pedro de Arcos, por exemplo, começou a tomar forma. 

Em 2025, passaram 50 anos da fundação. Seria interessante, não só como recordação, mas também como inspiração, que a história desta associação fosse resgatada. Há um nome, ja referido noutras crónicas, que é incontornável no GEICE e nas Lagoas, que é o de António Mario Leitão. Foi fundador, divulgador, promotor. Fica mais um repto à autarquia limiana, porque não promover junto deste, a publicação de um livro que conte a história do Grupo de Estudos e Investigação de Ciências Experimentais. Bem sei que nos últimos anos o GEICE está mais ligado à cidade de Viana do Castelo, mas, porque nascido em terras limianas, deveria ser este concelho a resgatar a importância que teve para centenas de jovens limianos.


O capitão


É uma referência no futebol. É um exemplo para os jovens jogadores da formação do “Os” Limianos. Zé Pedro Cerqueira, o capitão da equipa de Ponte de Lima, terá pendurado as chuteiras. Após uma carreira cheia, termina onde tudo começou, onde mora o seu coração. 

Talvez fosse da sua mensagem corporal, confesso que, apesar de continuar, como o Jardel, “a voar sobre os centrais”, no último jogo no Cruzeiro pressenti este momento. Infelizmente, não tive oportunidade de, nas bancadas do Cruzeiro, levantar-me e bater palmas a um atleta que deixou sempre tudo dentro de campo. Deixo aqui o meu agradecimento, não só pela carreira, mas, como já escrito anteriormente, ser um exemplo de amor ao Limianos e ao futebol para os mais novos.