Transformação eléctrica
Todos os dias somos abordados pela máxima de que temos de investir na transformação eléctrica. Carros eléctricos, fogão eléctrico, aquecimento da casa elétrico, a electricidade é verde e vem salvar-nos do caos ambiental em que nos embrulhamos.
Não, caro leitor, não vou escrever sobre a falácia presente nessa visão, vou, apenas e só, descrever uma situação que vivi recentemente. Na noite de Natal, lá para os lados de Sabadão, em pleno centro da vila de Arcozelo, no concelho de Ponte de Lima, várias famílias tiveram de recorrer a botijas de campismo para a confecção da ceia de Natal. O motivo não foi a vontade de viver experiências ao ar livre. Como já reportado há vários meses à E-redes, a energia que chega às casas daquela zona, apesar de paga e contratualizada, não é a suficiente para sequer ligar o fogão eléctrico para preparar as refeições. A luz que ilumina as casas é, digamos, romântica, pelo lusco-fusco e constante piscar, quase parecendo a luz imanada pela chama de velas. Como é possível, apesar das queixas, passarem-se meses e a capacidade da rede eléctrica continuar miserável, longe do contratualizado? Imaginem se, nas centenas de casas que por lá existem, tivessem de carregar carros eléctricos, teríamos, certamente, o colapso da rede na maior freguesia do concelho de Ponte de Lima.
Ora aqui está um bom tema para os responsáveis políticos locais trabalharem.
Paradigmas
Nos últimos 7 anos, quase todos os fins de semana, faça chuva, frio ou calor, tenho percorrido os campos de futebol, um pouco por todo o distrito, assistindo a jogos de formação. Li, aqui no Alto Minho, um artigo sobre formação desportiva e a constatação de uma situação que estará a ocorrer nos campeonatos distritais de futebol de formação. A questão de base seria a motivação que uma equipa, os seus atletas, teriam, quando jogo a pós jogo, perdem por números mais habituais noutras modalidades que não o futebol e até que ponto seria saudável, para a formação daqueles atletas, tal situação.
Na maioria dos casos, o financiamento dos clubes chega dos apoios municipais, estando estes, normalmente, associados ao número de atletas e competições onde participam. Se não participarem nas competições e se tiverem um “overbooking” de atletas num escalão, perdem a comparticipação municipal e a mensalidade dos pais. Em clubes que vivem do amor ao futebol e à terra, do voluntariado de quem dá o seu tempo, perder o financiamento que permite ao clube a sua sobrevivência é algo naturalmente impensável, que se tende a combater sem se olhar a potenciais vítimas.
Existindo, em escalões inferiores, muitos atletas, os clubes optam por formar equipas em escalões superiores maioritariamente constituídas por atletas mais novos. Apesar de ser “vendida” a ideia de que tal situação se deve à boa performance dos atletas mais novos, em muitos dos casos, os planteis são “reforçados” por estes de forma a permitir a participação do clube naquele escalão, mantendo os atletas no clube. Em idades em que a diferença de crescimento é deveras notória, facilmente é perceptível o motivo de resultados tão díspares. O desenvolvimento e capacidade física são factores diferenciadores. Por mais que exista treino e qualidade de jogo no processo formativo, se enfrentarem uma equipa em igual patamar formativo, mas com jogadores com quase o dobro do seu peso e altura, será muito difícil alcançar sucesso desportivo.
Talvez se tenha de olhar primeiro para o modelo de financiamento dos clubes e aí, deverá ser a Federação de Futebol a ter uma voz activa junto da Associação Nacional de Municípios Portugueses.