Mostrar mensagens com a etiqueta Pessoas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pessoas. Mostrar todas as mensagens

domingo, agosto 30, 2020

José de Matos Melo

No Verão rumava religiosamente com a sua Palmira para Vila Praia de Âncora. Não tinha paciência para ficar estendido no areal, fazia várias vezes o percurso pela areia até à Gelfa. Quando voltava à “Rua”, na Além da Ponte, era detentor de uma cor dourada que durava e durava para inveja de muitos.

José de Matos Melo, o meu primo Zé, era como que o irmão mais velho do meu pai. Esteve sempre presente na minha vida, nos bons e nos maus momentos. Na Páscoa, a sua casa era referência para a família, o queijo limiano, o pão de ló e o cheiro a café feito como só os antigos sabem fazer.
Pequenos pormenores do seu viver ficaram e ficarão marcados na minha memória. Dois exemplos, os seus sapatos Oxford, que recordo sempre que compro uns, e a sua bicicleta, vinda dos seus anos ao serviço dos Correios. E como ele tinha orgulho desses anos, tal como tinha em ter aprendido a arte de carpinteiro com o meu avô, seu tio.

Teve uma participação cívica activa, ajudou a fundar em Ponte de Lima o PPD-PSD, foi um militante sempre presente, tendo desempenhado várias funções sem nunca esperar “lugares” ou honrarias. Foi membro da Assembleia Municipal, onde marcou a diferença pela sua intervenção sobre assuntos concretos, do dia a dia, dos seus eleitores. Durante vários anos integrou a Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia onde teve responsabilidades nas áreas de manutenção e obras.

Foi, acima de tudo, um homem de família. Dedicado e sempre prestável com um grande e profundo amor à mulher da sua vida, a Palmira.
Faleceu no dia 29 de Agosto de 2020.



sexta-feira, julho 24, 2015

Na vida todos nós temos os nossos faróis…

(Artigo publicado no jornal Cardeal Saraiva de 16 de Julho de 2015)

Saiu cedo de Ponte de Lima. Ainda mal as borbulhas da puberdade invadiam o seu rosto, já seguia viagem, cruzando o equador, em direcção às terras de Vera Cruz. Desembarcou no Rio de Janeiro chamado por familiares, tios. Desde o início do sec. XIX que o Brasil, essa terra longínqua, era a escolha familiar para “fazerem” a sua vida.

Os mergulhos no Lima, os jogos do Triunfo e do Vitória, no areal, no Arnado, ficavam definitivamente para trás.

Tal como outros “patrícios” limianos enfrentou tempos, condições difíceis. Mas aquela cidade grande, enorme (e pensar que Lisboa lhe tinha parecido grande) era um mundo totalmente novo. Um mundo cheio de novidades com um turbilhão de atracções e tentações, um mundo onde era tão fácil perder o enfoque, o objectivo que o levara para lá.

Manteve sempre presente esse objectivo e sabia que só o conseguiria atingir trabalhando e não cedendo às tentações.

Alguns anos depois, tornava-se dono do local onde trabalhava, uma grande superfície comercial dedicada ao calçado. Desenvolveu-a e vendeu-a, angariando, assim, capital suficiente para investir noutras áreas florescentes. Casou e constituiu família e teve na sua mulher Isabel uma companheira para a vida.

O empreendedorismo, como hoje lhe chamamos, estava-lhe no sangue. Os ramos de negócio foram aumentando com especial enfoque na hotelaria, na restauração e no ramo automóvel. Neste último, conseguiu, entre outras representações, ser um dos primeiros representantes oficiais da FIAT, no mercado de milhões que é o Rio de Janeiro. Uma representação várias vezes premiada pela própria FIAT e que é proprietária do primeiro FIAT, modelo 147, produzido no Brasil.

Nunca esqueceu Portugal e a terra que o viu nascer. Todos os anos passava longas temporadas por cá. Ficava orgulhoso quando via a evolução da sua terra, a construção de infra-estruturas.  Nunca percebeu, no entanto, como é que Ponte de Lima não conseguia captar indústrias que considerava ponto essencial  para a criação de emprego e fixação dos jovens e das famílias.

Desde pequeno que me lembro de esperar por ele. Recordo-me da alegria sentida ao ver surgir, no início do Verão, o seu automóvel na curva de S. Gonçalo.

Os anos foram passando e felizmente já não era preciso esperar pelo Verão, os passeios passaram a ser tradição de sábado à tarde. Os longos passeios que dávamos começavam sempre pela pergunta “Nuno, onde queres ir?”. A minha resposta, sendo piada familiar, era sempre igual “A Paredes de Coura” (não me perguntem porquê, era muito pequeno…). Passeios que serviam, sobretudo, para conversar, para partilhar a sua experiência de vida, mas também para me ouvir, saber a minha visão sobre este ou aquele assunto da política ou a minha opinião sobre este ou aquele projecto que tinha em mente. E eram tantos, um verdadeiro exemplo de como a idade não tem de ser impedimento para os projectos que queremos realizar.  

Ainda há pouco tempo, por telefone, me falava da vontade de voltar a Portugal. Talvez este fosse o seu último projecto, voltar de vez, finalmente realizar o sonho, sempre adiado, de comprar uma casa em Ponte de Lima, voltar a morar na sua terra de sempre.

Infelizmente, já não conseguiu levar avante esse projecto. Luiz Amorim, meu tio-avô, faleceu no passado dia 6 de Julho, na cidade do Rio de Janeiro. 

quinta-feira, agosto 14, 2014

Ainda há mergulhos?

(Artigo publicado no jornal Cardeal Saraiva de 8 de Agosto de 2014)
Confesso que ao ouvir aquelas palavras tudo o resto se esvaneceu. As palavras foram "Levei os calções para a eventualidade de poder dar "O" mergulho deste ano no rio". A importância destas palavras está nelas próprias, na forma como foram ditas e em quem as disse. Apesar da pessoa ter consciência do estado do nosso rio, o mergulho anual, para aquele senhor com idade para ser meu pai, soou a uma espécie de ritual purificador ao género do Ganges. 
Essa paixão pelo rio que nos viu nascer é a mesma que ouvi da voz de um sábio idoso de Vilar do Monte que me dizia, em contexto eleitoral, que o grande problema do nosso concelho era onde tinham deixado chegar o "nosso rio". "Viraram as costas ao rio", dizia. Na altura, dei por mim a pensar que até parecia impossível a alguém com a idade do meu interlocutor, de uma freguesia que nem é banhada directamente pelo rio Lima, ter uma tal preocupação pelo mesmo... 
Talvez seja algo intrínseco no limiano. Uma paixão tal que talvez nem mesmo os seus filhos adoptivos consigam vivenciar da mesma, genuína, forma. Ouvir as respostas do presidente da Câmara ou do seu vice sobre o estado calamitoso do rio é, neste contexto, revoltante. 
Primeiro, foi a preocupação em desclassificar aquela que foi a primeira praia fluvial a ter bandeira azul, agora, quase colocam o ónus da poluição periódica naqueles que a denunciam. O vice-presidente, que durante muitos anos teve negócios dependentes do rio, que até afirmou que, há mais de 20 anos, pressentiu que mais tarde ou mais cedo o rio se iria defrontar com a praga infestante que actualmente enfrenta, que já exerce cargos autárquicos a tempo inteiro que até lhe permitiram uma reforma, o que é que fez para minimizar ou erradicar o problema? O presidente da Câmara, que até desempenhou por vários anos o pelouro do ambiente, já falou com os seus homónimos de forma a tomarem medidas conjuntas de combate às infestantes? Como podem simplesmente fechar os olhos às constantes descargas, aos saneamentos a céu aberto como o que se pode, por vezes, verificar junto ao Festival de Jardins? Até quando é que se vão esconder atrás de desculpas para não fazerem nada? 
Lamento profundamente que a geração dos meus filhos seja a primeira a não "saborear" o rio que corre junto aos seus pés. Foi por isso que as palavras descritas anteriormente, ditas de forma apaixonada, me marcaram. O rio Lima, que até nos empresta o nome, deveria ter outro trato, deveria ser motivo de outro respeito.

sexta-feira, novembro 23, 2012

Artigo no Novo Panorama




Artigo publicado no Novo Panorama em 15-11-2012






Bem prega…

 “Já havia os deputados para-quedistas, aqueles que concorrem por círculos longe da sua residência. Nascerá agora a figura do presidente de câmara emigrante…”, escreveu numa rede social Paulo Morais, natural de Viana do Castelo, residente no Porto, candidato, em 2009, a presidente da Assembleia Municipal de Ponte de Lima …

Inquietante

Segundo notícias que vieram a público recentemente, o número dos nascimentos em Portugal é o mais baixo de sempre, 2012 será mesmo o ano com menos bebés, desde que há registos. Ao todo, neste ano, não deverão nascer mais do que noventa mil crianças ou seja menos que a lotação do Camp Nou, o estádio do Barcelona.
Os alertas já estão todos a soar, esta inversão na pirâmide demográfica põem em causa, por exemplo, a sustentabilidade da Segurança Social, e poderá significar o fim do chamado Estado Social, tal como o conhecemos.
O meu filho mais novo nasceu precisamente este ano, que futuro terá? Esta é uma daquelas clássicas perguntas que ao longo de séculos os pais se colocaram. E a “crise”? -  perguntam-me. Mas, a crise que vivemos será maior quando comparável com as crises (económicas, culturais, guerras mundiais…) que viveram os nossos avós? Não sei. A verdade é que actualmente vivemos, não só uma crise económica, mas também uma crise de identidade, uma crise de valores, perdemos a noção de comunidade, a começar pela mais pequena, a família, cada vez mais desestruturada e disfuncional. A verdade é que vivemos cada vez mais sós.
Mas, e o futuro? O actual Estado Social, que vemos ruir perante nós, foi concebido logo após a crise de 1929 como uma resposta às necessidades sociais criadas pela grande Depressão, e durou mais ou menos 84 anos. Costuma-se dizer que o futuro a Deus pertence, o que é um facto, e Deus deu-nos algo interessante, que é liberdade, a liberdade de traçarmos o nosso caminho. O futuro? Como se costuma dizer, o caminho faz-se caminhando…

De visita obrigatória

Não sei se o leitor gosta de feiras de antiguidades. Eu gosto. E, pelos vistos, muitas outras pessoas também. A feira de antiguidades de Ponte de Lima já ganhou fama, muitas pessoas já se deslocam da região do grande Porto só para a visitar.
Devido a obras no espaço que a albergava, a avenida 5 de Outubro (popularmente conhecida por avenida dos Plátanos), a feira realiza-se agora na Avenida de S. João. Ganhou com esta mudança. Pelo que alguns vendedores me disseram, têm melhores condições que no anterior espaço. Como frequentador, concordo com esta opinião. É necessário ter em atenção um facto, o sucesso da feira. Este começa a dar-lhe uma dimensão que talvez já justifique uma ordenação mais estruturada, onde não seja o “salve-se quem poder” a reinar.
No segundo domingo de cada mês, é mais um bom motivo para visitar a vila de Ponte de Lima. 

terça-feira, março 27, 2012

Artigo no Novo Panorama


NOTA: Publicado no dia 22 de Março de 2012

Além da Ponte, um bairro histórico e com vida

O bairro da Além da Ponte sempre foi encarado como um género de hall de entrada da vila limiana. Por lá ainda podemos encontrar várias casas de famílias que marcaram a vida cívica e social de Ponte de Lima, no entanto, como noutros bairros do centro histórico limiano, o que se destacava era a forte componente comercial.
Na Além da Ponte, os cereais foram durante anos e anos os reis nos negócios. A farinha e o pão foram uma referência no comércio daquele bairro. Ainda no início dos anos 80 do século passado, era fascinante observar a chegada do moleiro à rua (a rua Manuel Lima Bezerra é localmente conhecida por “A rua”), em cima da sua carroça, puxada por um garboso cavalo esbranquiçado.
Lembro-me que muitas blusas, saias e fatos de cores vivas e espampanantes de mulheres recentemente enlutadas passavam pelo tintureiro, saindo de lá no mais sombrio negro. Mas o tintureiro não prestava apenas os seus serviços nessas alturas de pesar, servia para dar vida à roupa que tinha perdido a cor doutros tempos, mesmo que a opção tivesse por passar pelo negro.
A vida também passava pelas mercearias e pelas padarias. Por lá existiam também as famosas e afamadas tascas, com o agora divulgado bacalhau de cebolada e outros petiscos, onde nos dias de feira se juntavam muitas pessoas vindas de locais como as Argas, Labruja ou Paredes de Coura, antes de retomar o caminho de regresso, onde grupos de pescadores de Viana do Castelo faziam “peregrinações” para provarem o vinho novo. A loja de tecidos com os seus milhares de botões, o funileiro e, claro, o barbeiro, centro das novidades do bairro e do mundo.
Hoje, a Além da Ponte já não é assim, está em mutação. Por um lado, são as intervenções vindas da Câmara Municipal de Ponte de Lima com o Museu Rural, o Albergue de Peregrinos, o Museu do Brinquedo Português, os Hotéis e, dentro em breve, e bem perto, com o aparecimento de um parque de campismo. Por outro, é a vaga de novos habitantes, alguns com raízes familiares no bairro, outros vindos de fora, mas que juntos dão um colorido que, infelizmente, já vai rareando noutras partes do centro histórico limiano.
É verdade que a maioria dos negócios de que falei, as lojas por onde andei na minha infância, já desapareceram, mas também não deixa de ser verdade que a vida é feita de mudança. Felizmente para a Além da Ponte, após alguns anos de degradação e desinvestimento, esta mudança traz esperança. A esperança de que aquele seja um espaço novamente com vida. Assim se consiga replicar esta esperança noutros bairros do centro histórico de Ponte de Lima.



quinta-feira, junho 02, 2011

Texto no Cardeal Saraiva

Ponte de Lima ficou mais pobre

Foi com grande consternação que recebi a notícia do falecimento de Luís Dantas. Conheci-o mais de perto quando me enviou algumas mensagens a propósito de textos por mim escritos sobre a necessidade de trazer de novo à memoria colectiva limiana os combatentes da nossa terra que participaram na I Guerra Mundial.
Não o conhecia pessoalmente e foi através de Alípio Matos, meu pai, que pela primeira vez falamos precisamente sobre os combatentes da I Guerra Mundial. Deu-me a conhecer a sua investigação para a publicação de um livro sobre o assunto. É graças a ele que Ponte de Lima se pode orgulhar por ter no seu espólio uma publicação que honra a entrega daqueles que deram a sua juventude, por vezes a sua vida, naquela que ficou para a memória colectiva como A Grande Guerra
Luís Dantas era reconhecido pela seriedade nas suas publicações, como escreveu um amigo comum, José Marinho Gomes, as suas publicações eram baseadas não em palpites ou interpretações dúbias, mas no rigor histórico dos documentos. Foram várias as suas publicações e todas elas, pela qualidade, contribuíram de uma forma inequívoca para o engrandecimento da cultura limiana. 
Luís Dantas foi uma pessoa humilde que falava de igual modo com todas as pessoas sem pretensiosismo, aliás, como é apanágio dos Grandes Homens. O desaparecimento precoce de Luís Dantas é inegavelmente uma grande perda para Ponte de Lima, para a cultura limiana, mas uma enorme e irreparável perda para a sua família e seus amigos mais chegados. A estes deixo uma palavra de profundo sentimento pela sua perda. Ficam os seus trabalhos, os seus livros, a sua investigação, a sua poesia mas, acima de tudo, fica o seu  exemplo.

Texto publicado no jornal Cardeal Saraiva a propósito do desaparecimento de Luís Dantas

domingo, agosto 15, 2010

Artigo n'O Povo do Lima

O que fazia…

O que significam 125 mil euros? Para alguns, pouco ou nada, para outros, o problema da casa resolvido ou a possibilidade de dar uma vida melhor aos filhos. Se falarmos de um organismo público, suponhamos uma Junta de Freguesia, poderá significar a pavimentação de muitos caminhos, a renovação do centro da freguesia… Já se falarmos de uma Câmara Municipal, estamos a falar possivelmente de “trocos”.
A Câmara de Ponte de Lima vai receber menos 523 mil euros das transferências do Governo para o Município, sobre isso o Presidente da Câmara já veio afirmar que significará a não construção, por exemplo, do Centro de Documentação e Informação.
Os tais 125 mil euros são cerca de 25% do valor que o Governo cortou, os 125 mil euros é o custo da nova estátua a ser colocada na antiga feira do gado para homenagear as ditas “memórias do campo”

Incêndios

Não há um dia no último mês que não seja marcado por um ou mais incêndios. Ponte de Lima tem visto a sua mata, o seu património ambiental ser destruído dia após dia. É verdadeiramente criminoso, é verdadeiramente uma ignomínia, aquilo que se está a passar. Este é o resultado da inércia do Estado que abandonou a ordenação das suas matas, lavou as mãos e desistiu da floresta. Substituir os antigos cantoneiros e guardas florestais por equipas de GNR’s, chamadas de GIPS, com uma farda toda modernaça não foi certamente a melhor política.
Por mais que a Protecção Civil se esforce e os Bombeiros façam das tripas coração é impossível combater algo tão organizado sem um ordenamento territorial, florestal digno desse nome.


Vida

Foi com agrado que vi o senhor Malheiro à varanda da sua casa, cumprimentei-o e ele respondeu ao cumprimento, como sempre, amavelmente. Já não o via faz muito. Na Além da Ponte já se sentia a falta da figura alta, de voz possante do senhor Malheiro.