Mostrar mensagens com a etiqueta Protagonistas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Protagonistas. Mostrar todas as mensagens

domingo, julho 12, 2026

Alto Minho, artigo de 09-07-2026

Quinze anos de um caminho de transparência


“O poder político está a viver tempos de grandes desafios e um deles é o do acesso à informação por parte dos cidadãos. Os novos suportes ajudam nesse acesso e a verdade é que nunca como agora os cidadãos podem saber, podem fiscalizar o que os seus eleitos fazem.” Estas palavras, que parecem actuais, foram escritas por mim num já longínquo artigo de 2011. Quinze anos passaram, mas o diagnóstico mantém-se atual.

Um ano mais tarde, em Junho de 2012, enquanto membro da Assembleia Municipal de Ponte de Lima, apresentei uma proposta simples. Propôs, a bem da transparência democrática, que as gravações das sessões fossem disponibilizadas na página do município, divididas pelos pontos da Ordem de Trabalhos. A proposta foi aprovada por maioria, registando apenas cinco votos contra e quatro abstenções.

Mais recentemente, no mandato de 2017 a 2021, o presidente da Assembleia Municipal, João Mimoso de Morais, levou a ideia mais longe. Instituiu as transmissões em directo e online das reuniões, que passaram a ficar  guardadas no canal no YouTube do município. Parecia um caminho sem retorno rumo à abertura à comunidade.


O recuo na transparência


Infelizmente, o caminho da transparência esbarrou agora contra uma parede. Numa altura em que a transmissão das reuniões já era considerada algo natural e banal, um membro da Assembleia Municipal insurgiu-se contra a divulgação da sua “imagem e áudio”. De que terá medo, afinal, este eleito local? Não sei de quem se trata, mas espero que seja vertida em acta essa recusa. Deverá ser dado a conhecer aos eleitores quem é o seu representante que se quer esconder. Temerá que os concidadãos percebam o vazio, a impreparação ou o populismo das suas intervenções? Ou será por falta destas?

Na política, a lógica devia ser a inversa. Quanto mais um político vê as suas propostas e intervenções divulgadas, melhor. Quem aceita exercer um cargo público não pode ter medo da exposição. Pelo contrário, tem a obrigação moral de abrir a sua actividade a toda a comunidade, tanto aos que nele votaram como aos que fizeram outra opção.


Medo de quê?


Não consigo compreender o receio destes eleitos. Recordo que nenhum deles foi obrigado a candidatar-se. As reuniões da Assembleia Municipal são, por lei, actos públicos. A transmissão online nada mais faz do que potenciar esse conceito de praça pública, adaptando-o aos tempos modernos.

Terminar com as transmissões é um retrocesso que desrespeita o passado e empobrece a nossa democracia local. A continuar assim, daqui a nada,  regressaremos ao tempo de ir consultar as actas das reuniões numa sala do segundo piso da biblioteca municipal. Ah, e com um pedido antecipado de consulta. 

domingo, dezembro 14, 2025

Alto Minho, artigo de 11-12-2025

 "Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim"*

O PSD de Ponte de Lima entrou em processo conducente a eleições internas.  Pedro Salvador, ex líder da bancada social democrata no mandato 2017 a 2021, em entrevista a este jornal, apresentou-se como candidato à presidência da concelhia com algumas criticas à situação do partido. O actual presidente, Filipe Amorim, quis replicar, também aqui, no Alto Minho. Ao invés de rebater os argumentos apresentados, preferiu fazer insinuações e comparações entre os resultados de 2017 e 2025. Esqueceu-se, no entanto, das circunstâncias que envolveram as duas eleições. 


2010 a 2013


No rescaldo das eleições autárquicas de 2009, já no início de 2010, foram convocadas eleições internas no PSD limiano. Concorreram duas listas, uma liderada por Manuel Barros e outra liderada pelo então recém eleito vereador, Filipe Viana, que se recandidatava. Manuel Barros venceu por maioria absoluta. Alguns militantes, não aceitando a mudança escolhida pela larga maioria dos seus companheiros de partido, organizaram-se em torno do vereador num autoproclamado movimento que, de facção interna, se transformaria num movimento independente que viria a chamar-se Movimento 51. 

Se o rosto da cisão foi o do então vereador, este teve o respaldo de alguns militantes que tinham tido responsabilidades nas autárquicas de 2009. Paulo Morais, que tinha sido cabeça de lista do PSD à Assembleia Municipal, José Nuno Vieira de Araújo, que, mais tarde, chegou a liderar a bancada da Assembleia Municipal do PSD e se viria a desfiliar do PSD, Manuel Laranjeira, antigo director da campanha autárquica de 2009, entre outros que passaram a ser presença assídua nos encontros públicos do M51 e no apoio e, até, na integração nas listas candidatas deste movimento às autárquicas de 2013 e , mais tarde, nas de 2017. 

A participação de pessoas ligadas ao PSD nas actividades do M51 criou alguma confusão, dividindo o eleitorado social-democrata. Nessas eleições, embora perdendo 10% dos eleitores, o CDS perdeu apenas um vereador para o Movimento 51, que ficou em terceiro lugar, atrás do PSD. 


2013 a 2017


Ultrapassando a divisão, o PSD uniu-se, começando a falar a uma só voz nos vários órgãos autárquicos. O que o vereador proponha no executivo municipal era o que a bancada do PSD defendia na Assembleia Municipal e era o que a Comissão Política local tornava público. As reuniões pelas freguesias foram uma constante. Vários dos assuntos levantados pelos eleitos sociais-democratas, em reuniões dos diferentes órgãos autárquicos, sairam precisamente das preocupações transmitidas nessas reuniões. O número de militantes foi crescendo, fruto da forma construtiva, firme e determinada da acção política do PSD e seus eleitos. As reuniões internas, realizadas em conformidade com os estatutos, eram bastante participadas e palco de  discussões de assuntos relativos à realidade do concelho.

Quando foi necessário escolher o cabeça de lista à Câmara Municipal, o Plenário dos militantes, na altura liderado pelo actual líder do PSD local, Filipe Amorim, votou, numa sala cheia, com bastante participação, unanimemente e por aclamação a proposta da Comissão Política da recandidatura de Manuel Barros, na altura a exercer o cargo de vereador. Nessas autárquicas, apresentou-se a eleições, pela primeira vez, Abel Baptista. O movimento independente PLMT, embora com o apoio do PS, tinha na sua génese elementos ligados ao CDS. Iria dividir o eleitorado centrista? Na contagem de votos percebeu-se que a novidade do movimento de Abel Baptista afinal não retirará votos ao CDS, que manteve basicamente a mesma votação de 2013, mas a toda a oposição. O PSD perdeu cerca de 5% dos votos para a eleição do executivo municipal e cerca de 6% para a da Assembleia Municipal. A concentração de votos no PLMT elegeu 2 vereadores para essa força política. O PSD passou a terceira força eleitoral, ficando de fora do executivo municipal por uma centena de votos. Na Assembleia Municipal, passou de 8 para 5 membros. Já nas freguesias, conseguiu aumentar o número de eleitos e o de presidências das juntas, elegendo 4 em listas do PSD e uma como independente, com o apoio público do PSD.  


Consequência

 

Apesar da subida de eleitos nas assembleias de freguesia e da conquista de 5 presidências de junta e de muitos dos independentes que participaram no processo autárquico pedirem para se filiar, a Comissão Política local não se escudou em desculpas nem empurrou para outros a responsabilidade, assumiu-a e antecipou as eleições internas não se recandidatando. Eleitos em 2018, em lista única, os lideres locais do PSD não tiveram a organização de grupos internos de oposição, não tiveram facções a criar movimentos nem tão pouco enfrentaram novos movimentos cívicos. Tiveram sempre a disponibilidade dos anteriores lideres, mas nunca precisaram dela. Geriram, durante 8 anos, como entenderam, trabalharam com quem quiseram. Tudo o que hoje o PSD é e, acima de tudo, o que não é, no concelho, é da sua inteira responsabilidade. Depois de todos estes anos, apesar do fim do M51 e do declínio do PLMT, o PSD continua a ser a terceira força autárquica. Tentarem menorizar os que apresentam outro caminho com comparações de circunstâncias completamente diferentes talvez seja o maior reflexo do vazio onde se chegou e da necessidade de mudar.


* Meditaciones del Quijote / José Ortega y Gasset 

domingo, novembro 30, 2025

Alto Minho, artigo de 27-11-2025

Sozinhos

Mais de 1208 idosos vivem sozinhos ou isolados no nosso distrito, grande parte destes em “situação de vulnerabilidade”. Esta é uma informação que a GNR partilhou e que advém do balanço da operação “Censos Sénior 2025”. 

Muitos não irão perder muito tempo com esta temática. Provavelmente, nem terão consciência de que todos somos, num futuro mais ou menos próximo, candidatos a engrossar esse número. São vários os factores que contribuem para esta realidade. A falta de retaguarda familiar, seja qual for o motivo, a doença, a falta de meios financeiros.

O apoio aos idosos, num todo, as redes sociais de acompanhamento e acolhimento deveria ser um dos assuntos no topo da discussão política. Infelizmente, tendemos a pensar nisto quando já é tarde. Quando os políticos deixaram de o ser há muito, quando as redes se quebraram, quando o dinheiro, seja ele quanto for, deixar de conseguir comprar o que não tem preço. 

Agora que os autarcas, quase todos, já estão em plenas funções, é tempo de iniciarem um movimento no sentido de elevar este assunto a designo nacional. Sim, é necessária a solidariedade intergeracional. São precisas novas e mais profícuas políticas de apoio aos idosos. Aproveitemos o vasto conhecimento que várias instituições têm da realidade no terreno. As IPSS, instituições como as Misericórdias, que há séculos providenciam apoio social numa rede espalhada por todo o país. Não é coisa de partidos ou de gincana política, é algo que deve mobilizar todos os agentes até porque, como já escrevi mais acima, a tendência é de nós próprios engrossarmos essas estatísticas.   


Um dos “senadores” da “minha aldeia” partiu


Era um homem alto, que sobressaia com o seu porte, se o era nos dias de hoje, imaginem nos seus tempos de juventude. Era forte nas suas convicções, por vezes, até teimoso, frontal, monárquico e católico. Junto com a sua Dona Ester, criou uma família que tem um forte lastro de participação na vida religiosa na paróquia de Santa Marinha de Arcozelo (vila de Arcozelo, Ponte de Lima). 

A primeira ideia que me vem à cabeça, quando penso no Sr. Alípio Marinho, é a igreja de Santo António da Torre Velha, aquela que separa a velha ponte medieval da secular romana. Foi responsável por essa igreja e pela Irmandade de Santo António, nela erigida, durante vários anos. Era ele que ajudava à missa e assegurava que a igreja estava preparada, quando, ainda por lá, se celebrava a Eucaristia todos os domingos e dias da semana. O tempo, essa máquina voraz, foi passando e, quando percebeu que era necessário dar o lugar na gestão e direcção da Irmandade de Santo António, incentivou-me a candidatar-me ao cargo de Juiz. Foi com muita honra que, eleito pelos irmãos, o sucedi. Durante os anos que exerci essa função pude contar sempre com a sua ajuda e conselho. O Sr. Alípio Marinho partiu na passada semana com 93 anos.


domingo, setembro 14, 2025

Alto Minho, artigo de 12-09-2025

Feiras Novas

Começaram as maior festas do concelho de Ponte de Lima e uma das maiores do país. Durante os próximos dias, milhares de pessoas “invadem” o centro histórico, onde cada uma delas encontrará “a” festa que procura. Durante a noite encontram da música tecno à “house music”, na Expolima; as rusgas, no São João; as bandas de música, no largo de Camões; a música gravada e o convívio, nas Pereiras e arredores; o pão com chouriço e os divertimentos, em toda a marginal e no areal. Durante o dia, as manifestações da cultura limiana estão sempre presentes, nos cortejos, nas exposições agrícolas (onde o garrano e o gado bovino se tornam reis), nos bombos e cabeçudos, nas concertinas que “patrulham” as ruas. A Procissão em Honra de Nossa Senhora das Dores, na segunda feira, marca o ponto alto das celebrações religiosas, integrando centenas de pessoas e percorrendo diversas ruas do centro histórico. Venham a Ponte de Lima, vai valer a pena!


A insustentável leveza das Autárquicas


Na crónica de 30 de Janeiro deste ano, a propósito das autárquicas, perguntei, ao caro leitor, “o que pensaria se um político, que, sendo militante de um partido, assumisse, sem se desfiliar, a candidatura por outro partido? E se, quatro anos depois, noutras eleições, assumisse uma candidatura independente? E se, para  compor o “ramalhete”, agora tentasse uma candidatura com o apoio de um terceiro partido?”. Lembra-se? Pois bem, reparem na maior freguesia do concelho de Ponte de Lima, a vila de Arcozelo. O actual presidente da Junta foi eleito pelo movimento Ponte de Lima Minha Terra, até há uns meses assumiu o cargo de presidente da concelhia do PS local, e, em Maio, nas eleições legislativas, integrou a lista socialista à Assembleia da República. Atualmente, assume uma candidatura independente, mas apoiada pelo CDS. 

Aceitarão os socialistas esta “traição”? E os centristas locais, no seu íntimo, o desaforo? Numa freguesia em que a matriz ideologia, historicamente, para os órgãos locais, é do centro, centro esquerda, onde o CDS não tem tido grande expressão, há quem diga que este apoio, à falta de lista própria, será a forma que encontraram para afastar o actual presidente do cargo.


Sem cinema


Ao que parece há a séria possibilidade de Viana do Castelo perder as únicas salas de cinema existentes no concelho, as do Estação Viana Shopping. A verdade é que a cidade de Viana do Castelo não consegue, por exemplo, atrair uma pessoa de Ponte de Lima, concelho vizinho que já não tem sala de cinema há anos, para as suas salas de cinema. Mais ao menos à mesma distancia física e temporal, em Braga, um limiano encontra mais variedade de filmes e de horários, sem ter que pagar estacionamento e com salas mais cómodas e amplas.

As reações que se vão lendo são em tudo iguais às de quando uma loja histórica do comércio local encerra. Todos têm memórias, todos lamentam, mas ninguém lá ia comprar nada. 

domingo, julho 20, 2025

Alto Minho, artigo de 17-07-2025

Despedida

Soube, recentemente, que Pedro Ligeiro, histórico membro da Assembleia Municipal de Ponte de Lima, eleito pelo Partido Social Democrata, vai deixar esse órgão autárquico no final deste mandato. Por sua vontade não volta a ser candidato. Não sei qual a razão para essa decisão, mas sei que é feita com coragem, significa, no entanto, uma grande perda para o concelho e para a capacidade de intervenção do partido que representou por cerca de 26 anos. 

Vivemos o mesmo tempo dentro do PSD. Exercemos cargos, candidatámo-nos internamente um contra o outro e em listas conjuntas, estivemos, internamente, quase sempre em discordância. Tivemos fortes discussões e batalhas internas, mas sei que sempre pude contar do Pedro frontalidade. Sempre o respeitei por isso, pela independência e frontalidade. Partilhamos os bancos da Assembleia Municipal, sou testemunha da sua intervenção mordaz, sem amarras, sem hesitações, preparada e séria, reflexo da sua profunda vontade de ajudar a construir um concelho melhor.


Que caminho?


Confesso que já não acompanho, como anteriormente, os trabalhos da Assembleia Municipal de Ponte de Lima. Mesmo antes de ser membro dessa Assembleia, sempre gostei de acompanhar os seus trabalhos. É por lá que se discutem os problemas do concelho. Até à primeira década deste século, acompanhar os trabalhos significava estar presente na reunião que poderiam durar muitas, mesmo muitas horas. Quando foi eleito, uma das minhas primeiras propostas, aprovado por maioria, foi que, junto à acta, disponibilizada na página do município, fosse colocado um ficheiro audio, dividido pelos pontos em discussão, que permitissem que os cidadãos ouvissem o que por lá se discutia e decidia. 

Hoje, e bem, há uma transmissão em direto das reuniões, em streaming, que pode ser consultada mais tarde. Não será por falta de alternativas de acompanhamento que não o faço. Nem é pela falta de esforço pela descentralização e abertura, do seu presidente, João Mimoso de Morais. Na verdade, depois de ter lá passado, em dois mandatos, como membro, ver agora as sessões torna-se um pouco pesaroso. Não é por qualquer sentimento de nostalgia, mas por verificar que os problemas internos que existiam se agravaram. A maioria dos membros não intervêm, não discute, não se prenuncia, reduzem a sua participação às votações. Isso, se não enfrentarem uma vontade súbita de ir à casa de banho…

Há 10 anos era impossível uma reunião, onde se discutisse o Plano e Orçamento, demorar menos que o dia inteiro de sábado, por vezes o almoço tornava-se lanche ajantarado. Hoje, em poucas horas fica tudo “discutido”. Talvez seja por isso que a atractividade para manter ou captar novos membros, que queiram realmente intervir e fazer a diferença, seja cada vez menor. 


Não!


Quem também se despediu dos cargos que ocupava foi o professor José António Silva. O professor José António, quando eu frequentei o “ciclo” já exercia cargos diretivos, foi director durante o tempo em que a minha filha frequentou a mesma escola, já com o nome do nosso poeta António Feijó, e despede-se do cargo quando o meu filho mais novo a frequenta. 

No seu discurso de despedida, realizado numa sessão que homenageou o seu trabalho, afirmou “parto como cheguei à Escola António Feijó”. Deixe-me, caro director, discordar. Quem, como o professor, dedicou tanto do seu tempo à “sua” escola não parte igual, parte com a riqueza de quem marcou a vida de gerações de limianos. Obrigado!

domingo, junho 08, 2025

Alto Minho, artigo de 29-05-2025

Perguntas incomodas 

No passado domingo, ouvi a seguinte frase “as crianças, ao contrário dos adultos, não se retraem de fazer perguntas por terem medo de ouvir as respostas”. Aparentemente, parece que é isso que está a acontecer neste momento de ressaca eleitoral. Muitos parecem ter medo de perguntar por que será que quase 23% dos eleitores aparentam ter-se fartado do actual sistema político? Ou, o que levará tradicionais eleitores da extrema esquerda a votar num partido rotulado de extrema direita? As respostas serão difíceis de ouvir, mas mais difícil será o resultado de fazer de conta que nada se está a passar. 

Existe um alheamento dos políticos e uma falta de visibilidade mediática dos verdadeiros problemas que nós, “a paisagem do país”, enfrentamos no nosso dia a dia. Se esse alheamento deixa um sentimento de afastamento e revolta, não há como esconder, verifica-se uma vontade disruptiva perante o sistema político em que vivemos. 

Uma franja do eleitorado olha com desdém para os partidos e políticos. Alguns, com o seu voto livre, optam por uma ideia de líder, que embora politico e vindo do sistema, se apresenta como de fora e “diferente". O mesmo que na noite eleitoral recebia apoios com gritos de “a mandar em Portugal”, reparem que optaram pela palavra “mandar” e não por “governar”. Será a mesma situação que coloca um ex-militar na frente da corrida presidencial, até porque, sendo “não é político, é serio!”…

Vivemos num sistema democrático, onde todos podem participar, mas onde também os partidos são pilares e os nossos representantes são escolhidos e escrutinados em liberdade. Existem problemas? Claro que sim, mas sejamos exigentes, cabe a cada um de nós não abdicar da participação, não se recolher no egoísmo de tratar apenas da “nossa vidinha”.


Novo rumo


Ricardo Felgueiras trouxe uma nova visão à Associação de Futebol de Viana do Castelo. Não foi só a parte visual que mudou com novos logotipos, a política de proximidade com os clubes aprofundou-se e a comunicação com a comunidade reforçou-se. A parceria com os clubes e com os agentes da sociedade é a aposta de Felgueiras, que já anunciou parcerias para, por exemplo, proporcionar a transmissão online de jogos dos campeonatos da Associação. Não há como negar que, sendo o futebol o desporto mais praticado e com maior visibilidade social, esta vontade de trazer os órgãos que o gerem para junto da comunidade é bem-vinda e traz um novo ciclo para o futebol distrital. 


Exemplos


Por falar em futebol, agora que termina a época da formação, quero deixar uma palavra de apreço a todos os que dedicam o seu tempo na formação de milhares de jovens e crianças. São eles que ajudam não só no seu crescimento desportivo, como também na sua formação humana e social. 

Deixo um exemplo dessa dedicação, um treinador já histórico de “Os Limianos”, Adelino Silva. O Adelino já marcou várias gerações de jovens que passaram na formação do clube de Ponte de Lima. Embora com a preocupação de os fazer crescer no futebol e no desportivismo, promoveu sempre a ideia de que, mais que resultados imediatos, o que interessa é o crescimento dos atletas nas várias dimensões. Uma ideia que já fez escola em treinadores que um dia foram seus atletas.   


domingo, abril 13, 2025

Alto Minho, artigo de 10-04-2025

Também por cá

O que se passou, na passada semana, em relação à lista de candidatos a deputados pelo lista do PSD no Alto Minho demonstra que a política, tal como a conhecíamos na nossa região, acabou. Sim, deixou de haver respeito pelo próximo, pela sua vida, para pôr em prática a velha máxima “o fim justifica os meios”. 

Alguém, com acesso à comunicação social nacional, tornou-se fonte de meias verdades que rapidamente se transformaram em títulos feitos para partilhas/gostos/comentários nas redes sociais, de imediato multiplicados. Estes criam “sensações” generalizadas, logo replicadas pelos “justiceiros do teclado”, que nem comunicados e esclarecimentos conseguem combater, até porque, na maior parte das vezes, a leitura da peça cinge-se ao título.

Alguém me dizia que, afinal de contas, o que escrevi na passada semana, referindo que “os militantes do PSD de Ponte de Lima partem para a campanha com a motivação extra de estarem a trabalhar para conseguir eleger uma deputada vinda do seu seio”, deixou de ser verdade. De facto, deixou, mas as razões que contribuíram para isso talvez provoquem uma dinâmica ainda mais poderosa e profunda. Uma dinâmica que vá além de nomes ou listas, uma luta pela dignidade e respeito pelo outro.


Temas arredados da campanha?


A campanha eleitoral, ainda que sem sem esse nome, já começou. Seria bom que integrasse, nas discussões que surgirão, temas realmente estruturantes  para a nossa comunidade. É o caso da assistência aos mais idosos. Que plano propõem os partidos para a nossa região? Que apoios ou propostas defendem para esse sector social dedicado aos nossos concidadãos? E no que concerne aos cuidados continuados, continuaremos a ter uma rede deficitária ou têm propostas concretas para apresentar aos agentes que prestam esse serviço?

Bem sei que poderá ser uma chatice exigir aos candidatos a nossos representantes que falem sobre assuntos concretos, que são um problema na nossa comunidade, mas deveriam ser eles a entendê-los como prioritários, considerando obrigatória a sua discussão, e a propor-nos, a nós, seus eleitores, um caminho para uma solução.


Justiça


Não deixa de ser interessante verificar como os extremos políticos, de direita ou de esquerda, com um discurso tão radical em relação à justiça sobre os “outros”, nas situações em que esta incide sobre eles ou alguém do seu circulo, é logo rotulada como perseguição política. Passa, rapidamente, a ser vista como uma força manipuladora promotora de ataques à democracia representativa.

domingo, abril 06, 2025

Alto Minho, artigo de 03-04-2025

Uma limiana na Assembleia da República?

Foram conhecidas as listas com os candidatos do PS e da Aliança Democrática pelo nosso circulo eleitoral à Assembleia da República. Na do PS, não há nenhum limiano na lista dos efectivos, já na lista da Aliança Democrática há a real probabilidade de eleger uma limiana à Assembleia da República. 

Na última crónica escrevi sobre a constituição das listas, sendo que João Esteves, do qual escrevi, assume a segunda posição na Aliança Democrática. Há, no entanto, uma surpresa. O terceiro lugar, com forte possibilidade de ser eleita diretamente, é ocupado por Dália Lima. Limiana, antiga cabeça de lista do PSD à Assembleia de Freguesia de Bertiandos, é Técnica Superior no Instituto de Emprego e, embora indicada pela concelhia de Viana do Castelo, poderá vir a ser a primeira mulher limiana eleita deputada. 

São 5 os deputados que a nossa região elege. No ano passado, nas últimas legislativas, foram eleitos dois deputados da AD, dois do PS e um do CHEGA. Nestas eleições, a Aliança Democrática pode eleger 3 deputados. E o CHEGA? Eduardo Teixeira, enquanto deputado do PSD, foi tido como um deputado sempre junto das populações, no entanto, neste ano de mandato, eleito pelo CHEGA, passou mais tempo nos canais de notícias que com os seus eleitores. Há quem diga que se “aburguesou”. Mas o protagonismo mediático nacional não será positivo para a sua reeleição? Na verdade, para o seu eleitorado, resultou no afastamento do deputado, que deixou de estar no meio deles para dar a cara a nível nacional por um partido envolto em constantes polémicas, aparentemente mais apostado na instabilidade política e institucional que em realizar propostas coesas, concretas e credíveis para os verdadeiros problemas dos portugueses. É notório o desgaste de dar o rosto por um partido em que deputados e destacados líderes enfrentam várias acusações e investigações feitas pelo Ministério Público, por crimes como aliciação de menores, roubo, crime informático, difamação, etc.

Na actual conjuntura, os militantes do PSD de Ponte de Lima partem para a campanha com a motivação extra de estarem a trabalhar para conseguir eleger uma deputada vinda do seu seio, a primeira(o), desde António Carvalho Martins, eleito nas eleições de Outubro de 1999.


O Leopardo


Numa plataforma de streaming é possível ver uma série inspirada no clássico da literatura “O Leopardo” de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Tendo lido o livro há muitos anos, não quis perder, no entanto, a série, que recomendo veemente. Claro que não substitui a leitura ou releitura do clássico. Foi o que fiz nos últimos dias, e, tendo em conta os tempos atuais, que decisão acertada a minha. A certa altura, depois do protagonista explicar a sua recusa ao convite para ser senador, o interlocutor contrapõe com o seguinte, “se os homens honestos se retirarem, o caminho fica livre para a gente sem escrúpulos nem perspectivas”. Como seria diferente se, em vez de perdermos tempo em scrolls sem fim nas redes sociais, o ganhássemos a ler ou reler os clássicos!

domingo, março 30, 2025

Alto Minho, artigo de 20-03-2025

Aí vamos nós!

Um ano depois, voltamos a ter eleições legislativas. Uma guerra de egos, falta de bom senso e calculismo político impediram que um governo assente numa base parlamentar minoritária, mas com um programa de governo aprovado e resistente a duas moções de confiança, terminasse o seu mandato.

As “agulhas políticas” mudam, assim, de posição. Quando começavam a construir as listas para as eleições autárquicas, eis que os partidos têm de se voltar, novamente, para as listas à Assembleia da República. Para uma maior transparência, os partidos deveriam impor, desde logo, a regra de que nas listas à Assembleia da República não há lugar a candidatos a presidente de câmara, a vereadores, a cabeças de lista às Assembleias Municipais e a presidente de junta. 

Para além de renovação, seria uma forma de respeitar os eleitores. Os partidos e os políticos não devem menorizar as eleições, todas são importantes.


Tarefa fácil, ou não…


As listas não são fáceis de constituir, não por falta de candidatos a candidatos, mas pela dificuldade de gerir os interesses nacionais, locais e os inerentes à política interna dos partidos.

No PSD Alto Minho, João Esteves, na recta final do seu ultimo mandato como presidente da Câmara de Arcos de Valdevez, será o nome mais consensual para liderar a lista de deputados indicada pela distrital do Alto Minho. E porque a representatividade deve ser ponderada de forma a ir ao encontro do eleitorado, João Esteves, deveria ser seguido por uma mulher indicada pela concelhia de Viana do Castelo (Barbara Barreiros?), seguido por um nome de Ponte de Lima.

Já no PS, se o nome de Mariana Gonçalves não será nenhuma surpresa, o de Vítor Paulo Pereira, actual presidente da Câmara de Paredes de Coura, também em final de ciclo e líder da distrital socialista, será de acompanhar. Empurrará José Maria Costa para um lugar não eletivo? E Miguel Alves estará disposto a voltar à política activa? 

As listas a deputados, numa altura em que todos os votos contam, deveriam ter uma constituição ainda mais criteriosa, com maior representatividade e abertura às comunidades e menor permeabilidade às “sensibilidades” internas.  


Sucesso


Para muitos, sucesso é ter poder económico, social, político. Será? O que dizer daqueles que, até prescindindo desses “poderes”, se mantêm fiéis aos seus princípios, aos seus valores, à sua essência? 

Alguns afirmam que o sucesso só é medido na relevância que se alcança após a morte. Se ficarmos conhecidos, então, sim, tivemos e temos sucesso. Esquecem-se, no entanto, de que, mais tempo menos tempo, esse manto do anonimato acabará cobrindo todos. Quantas ruas com nomes de personagens em tempos sonantes são agora apenas um apêndice ao código postal, sem que ninguém saiba quem foram os que lhe deram nome. Talvez o sucesso seja alcançado quando se vive sem o peso da traição a si mesmo, aos valores e princípios que nos fizeram Ser.  

domingo, março 16, 2025

Alto Minho, artigo de 13-03-2025

Celebração digna!

O Município de Ponte de Lima está de parabéns pelas actividades comemorativas do Dia de Ponte de Lima e dos 900 anos da outorga do foral de Dona Teresa. Não só pelas que ocorreram no dia 4 de Março, como também pelas que se foram sucedendo durante o último ano e as que iremos vivenciar até Março de 2026. 

Não posso deixar de realçar que o slogan que referi na passada crónica deixou de ser usado, pelo menos nas alocuções na sessão oficial, pelos nossos representantes autárquicos. Aparentemente deixaram morrer um slogan historicamente errado, parabéns pela coragem! 

Infelizmente, ainda nem todos a tiveram, Nas suas redes sociais, o movimento PLMT insiste no “a vila mais antiga de Portugal”. Ponte de Lima, como escrevi anteriormente, não necessita de permanecer ancorada a uma mentira para se promover e se afirmar. 


E daqui a 100 anos?


Aguiar Branco, na Sessão Solene de dia 4 de Março, afirmou que devemos “encontrar na história os fundamentos para enfrentar os desafios do futuro”. Quando se comemorarem os 1000 anos do foral de Dona Teresa, que discursos terão os nossos netos e bisnetos? Será que ficarão presos a resenhas históricas ou dirão algo como “conseguimos fazer jus ao desafio que Dona Teresa nos fez quando nos outorgou um foral. Mil anos depois, somos uma referência de sustentabilidade, de preservação do património natural e edificado, de urbanismo e de inclusão, de produção tecnológica e de saber. Tal como no passado, também agora, atraímos os melhores para a nossa comunidade”? Sim, o passado é importante, mas não devemos viver apenas de glorias passadas. Precisamos de conceber um plano para o que queremos ser no futuro, e trabalhar para lá chegar.

 

Afinal?


Com a possibilidade de reprovação, pela oposição, da moção de confiança apresentada pelo governo (quando escrevo ainda se desconhece o desfecho) e com a ida do país novamente para eleições legislativas, o tema “autárquicas” volta a ser ensombrado, relegado para segundo plano. Não posso deixar de realçar, no entanto, as recentes notícias que dão conta de que a concelhia do PSD de Viana do Castelo aprovou o nome para encabeçar a sua lista candidata à Câmara Municipal. A escolha recaiu em Paulo Morais, nascido em Viana do Castelo, em 1963, docente universitário, com um MBA em Comércio Internacional e doutoramento em Engenharia e Gestão Industrial pela Universidade do Porto. Militante do PSD até 2013, fez parte do primeiro executivo municipal de Rui Rio, no Porto, tendo sido, ainda, candidato às presidenciais de 2016, obtendo 2,16% da votação, correspondendo a 100.008 votos. Já agora, porque normalmente não consta nas suas biografias, Paulo Morais, nas eleições autárquicas de 2009, foi cabeça de lista do PSD à Assembleia Municipal de Ponte de Lima. A sua passagem como membro da Assembleia Municipal de Ponte de Lima foi tão marcante como um navio que atravessa o oceano. 

Há, no entanto, alguma estupefação pela escolha do partido e por Paulo Morais ter aceitado. Na última década, Morais embarcou numa narrativa anti partidos, em que todos parecem ser corruptos ou potenciais corruptos ou corruptores. Com artigos, só referenciando alguns dos assuntos recentemente abordados, com títulos como “partidocracia fatal”, “tráfico de solos”, onde classificou a lei dos solos do actual governo como “ignóbil trafulhice”, considerou, ainda, o Orçamento de Estado de 2025 inconstitucional. 

A escolha está feita, faltará a homologação nacional, falta saber, agora, se conseguirá capitalizar o descontentamento e a vontade de mudança, que são cada vez maiores, ou se, pelo contrário, a sua candidatura resultará no efeito contrário.  

domingo, fevereiro 23, 2025

Alto Minho, artigo de 20-02-2025

O mundo ao contrário

Há um ressentimento cada vez maior pelas supostas elites, um sentimento exacerbado por líderes populistas sedentos de poder e de vontade de entrarem no sistema político, não para o melhorar, mas com a intenção, declarada, de o destruir a partir de dentro. Para isso, atacam os tribunais, os “partidos tradicionais”, e, claro, a imprensa que “está ao serviço de interesses ocultos”. Servem-se do descrédito das instituições democráticas, descrédito alimentado por mentiras, desvalorizando tudo e todos que os desmintam. Nisto, a extrema-esquerda woke e a extrema-direita são gémeos. 

Recentemente, um dos partidos que se serve do expediente descrito anteriormente, confrontou os seus eleitores com a sua dura realidade. O líder convoca conferências de imprensa e produz vídeos para as redes sociais a gritar “vergonha”, ridiculariza eleitos de outros partidos e instituições, afirma, até, que existe o risco do Parlamento se tornar “uma casa de alterne do crime”. Mas eis que, qual tsunami de realidade, ficamos a saber que alguns dos protagonistas do partido, escolhidos pelo líder para ocuparem cargos políticos de relevo, demonstraram como seria se o eleitorado “sucumbisse”… ao seu apelo. Membros do partido, alguns até deputados da nação, são suspeitos e acusados de crimes como roubo, prostituição infantil, participação económica em negócio, ameaças físicas, etc. Sim, têm razão quando afirmam serem diferentes, são, mas para muito pior.


Recrutamento


A maioria das pessoas não pensam, nem nunca pensaram, em participar na vida política, pertencer a um partido, a um movimento, candidatar-se a uma eleição. Infelizmente, são cada vez mais os que, tendo participado, rapidamente se afastam. Não é fácil. Muitos pensam que quem por lá anda apenas o faz por interesse próprio (seja por benefícios sociais ou financeiros), mas a verdade é que a grande maioria que participa activamente na política, nos partidos, nos movimentos, o faz por convicção, sem ganhos, na maioria das vezes até com custos financeiros e pessoais. 

É neste ambiente de afastamento que os partidos e movimentos têm a responsabilidade de atrair os melhores, nas artes, na cultura, na economia, na saúde, no ensino, nos mesteres. É difícil? Claro, mas, se não fizerem esse esforço, a degradação, como se vê, causará danos que poderão ser irreparáveis para a nossa democracia, para o nosso sistema político-social.


Lagoas




Ainda se lembra das bicicletas “Lagoas”? Já não se lembra? Em 2009, o município de Ponte de Lima investiu 14.389,60 € na compra de bicicletas que baptizou de “Lagoas”. Foram criadas ciclovias e promoveu-se a ideia de “passeios” de bicicletas até à zona húmida de Bertiandos e São Pedro de Arcos. Infelizmente, o projecto de mobilidade não teve desenvolvimento, vindo a desaparecer sem se dar por ela.
As bicicletas, essas, a última referência que encontrei sobre elas foi a de um leilão de venda por lote. Em sentido contrário, recentemente, o concelho de Barcelos criou uma rede de bicicletas partilhadas, onde, por um valor residual, os residentes podem usufruir desse meio de transporte. Se pensam que só resulta numa cidade, desenganem-se, o município de Vila Verde apresentou, no início deste mês, o projecto “Bike Amor”. Nada mais, nada menos, que um sistema de bicicletas partilhadas que, se tiver adesão, poderá ser replicado noutros pontos daquele concelho. Eis dois bons exemplos que poderiam ser replicados em concelhos alto-minhotos, concelhos como o de Viana do Castelo e Ponte de Lima. É preciso deixar o conservadorismo, tão enraizado na nossa região, e dar passos na mobilidade sustentável.