domingo, julho 26, 2026

Alto Minho, artigo de 23-07-2026

Sentido de comunidade

Chega a altura das férias. Uns aproveitam para ter uns dias de praia, outros para saborear o doce e simples descanso e outros ainda para viagens culturais. Confesso que gosto dessas três opções. Um dos melhores momentos é sentar-me numa praça, numa longínqua cidade ou vila, e simplesmente observar quem se cruza comigo.

Há uns tempos, numa cidadezinha na Toscânia, estava eu imbuído nessa actividade, enquanto saboreava um gelado, quando reparei em algo que já não vejo há muito por cá. A noite chegava e, com ela, as famílias reuniram-se na praça principal. As crianças tomaram conta do espaço público com as suas brincadeiras, enquanto os adultos, sentados nos bancos públicos e esplanadas, conviviam.

Por lá as pessoas ainda se reúnem, partilham conversas enquanto bebem um café, e as crianças brincam, imaginem só, fisicamente, umas com as outras e sem a intervenção dos adultos. É a simplicidade de algo que eu vivi até ao início dos anos 90 e que agora parece desaparecido. O leitor ainda se lembra da última vez que saiu de casa, após o jantar, com o único objectivo de nada mais fazer do que sentar-se na praça ou no largo para simplesmente conviver com os seus vizinhos?


O desconforto do serviço


Recentemente, numa dessas conversas de café, lembrei-me de uma viagem que fiz à Cidade Eterna e de uma experiência que me ficou para sempre gravada na memória. Nessa viagem tive a oportunidade de visitar a capela pessoal e privada de João Paulo II no Vaticano, a “Redemptoris Mater” (1999). Os seus deslumbrantes mosaicos de estilo bizantino que revestem todas as paredes, concebidos sob a orientação teológica do próprio Papa, fazem com que, para muitos, esta seja considerada a "Capela Sistina moderna".

Há um pormenor, no entanto, que me marcou, a cadeira para o Pontífice. Ao contrário do que se possa pensar, não é confortável. Aliás, tem até pormenores desenhados para deixar o ocupante desconfortável. A ideia é que o Papa, ao sentar-se na “cadeira pontifícia”, recordasse que o lugar que ocupa não serve para o seu bem-estar, mas para o manter inquieto, ao serviço dos outros.

A opção por esta cadeira foi do próprio João Paulo II e deixou os responsáveis por projectar a capela desconcertados. Sim, quem está ao serviço dos outros nunca se deve sentir confortável nesse lugar. O conforto pode levar à inacção. Que exemplo.


(Faça um tour virtual, vale a pena: https://www.vatican.va/content/dam/vatican/virtualtour/redemptorismater/resources/tour-en.html)


Nota


O que retiro deste Mundial de Futebol é a consolidação da posição mais ingrata, a de guarda-redes. Foram eles os heróis em quase todos os jogos, mais ou menos experientes, mais ou menos conhecidos, foram decisivos. Vozinha, Pickford, Nyland, o nosso Diogo Costa (etc), quando se falar deste mundial serão os seus nomes a serem lembrados.  

domingo, julho 19, 2026

Alto Minho, artigo de 16-07-2026

O tempo que não pára

O tempo que vivemos é, para nós, o mais importante. Não apenas por ser o nosso, mas porque, por norma, nos parece o mais avançado, o verdadeiro topo da inovação. A verdade é que o tempo é uma roda que não para de girar. Como me dizia o meu tio Luís, “gostava de viver mais tempo só para experimentar as tecnologias e ideias do futuro”.

Hoje, no Ocidente, vivemos num mundo marcadamente digital. Quando interagimos com a Administração Pública, já o fazemos, quase sempre, através de um ecrã. Os processos estão desmaterializados e o suporte em papel foi praticamente afastado dos procedimentos. É aqui que surge uma questão central. Hoje podemos consultar processos que decorreram há séculos porque chegaram até nós em papel. Mas, e os processos que agora nascem e existem apenas nas “nuvens” digitais? Durarão tanto tempo? Conseguiremos garantir a sua preservação e, com isso, a salvaguarda de direitos e garantias fundamentais?


Exigência cívica


Foi precisamente a pensar nisto que, na passada semana, a CIM Alto Minho e o Arquivo Distrital de Viana do Castelo reuniram, na Villa Morais, em Ponte de Lima, técnicos e responsáveis políticos dos 10 concelhos do Alto Minho. O debate contou com as intervenções de Jorge Janeiro, Subdiretor-Geral da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, e de Pedro Penteado, Diretor de Serviços de Arquivística e Normalização da mesma instituição.

A partilha de boas práticas esteve a cargo de Fernanda Gonçalves, do Serviço de Arquivo do Centro Hospitalar Universitário de São João, que explicou a “construção” e aplicação prática do Plano de Preservação Digital naquele hospital. Embora o tema envolva arquivos, o que está aqui em causa ultrapassa a mera dimensão cultural onde, por vezes, colocamos estas questões. Estamos perante um assunto em que os arquivos assumem, também, um papel fundamental, a preservação dos direitos, das garantias e da própria confiança dos cidadãos na Administração Pública.


150 anos da PSP no nosso distrito


O Comando Distrital da PSP de Viana do Castelo celebra, no próximo dia 18, o seu 150.º aniversário (1876–2026). Sob o lema "A vós outros aqui se estão guardando", a instituição assinala um século e meio de história com um programa aberto à comunidade.

Este marco histórico convida à reflexão sobre o modelo de policiamento na região. A verdadeira eficácia policial reside no reforço dos meios humanos e materiais nas ruas. Ao longo das últimas duas décadas, o percurso da corporação ficou marcado por acesos debates cívicos e políticos. O distrito enfrentou momentos críticos, desde a forte contestação popular contra a ameaça de encerramento da esquadra de Ponte de Lima, em 2006, até às persistentes discussões sobre as áreas territoriais de atuação. Ao celebrar os 150 anos deste comando, devemos honrar o seu passado, mas sem esquecer a necessidade de garantir o seu futuro operacional junto das populações.

domingo, julho 12, 2026

Alto Minho, artigo de 09-07-2026

Quinze anos de um caminho de transparência


“O poder político está a viver tempos de grandes desafios e um deles é o do acesso à informação por parte dos cidadãos. Os novos suportes ajudam nesse acesso e a verdade é que nunca como agora os cidadãos podem saber, podem fiscalizar o que os seus eleitos fazem.” Estas palavras, que parecem actuais, foram escritas por mim num já longínquo artigo de 2011. Quinze anos passaram, mas o diagnóstico mantém-se atual.

Um ano mais tarde, em Junho de 2012, enquanto membro da Assembleia Municipal de Ponte de Lima, apresentei uma proposta simples. Propôs, a bem da transparência democrática, que as gravações das sessões fossem disponibilizadas na página do município, divididas pelos pontos da Ordem de Trabalhos. A proposta foi aprovada por maioria, registando apenas cinco votos contra e quatro abstenções.

Mais recentemente, no mandato de 2017 a 2021, o presidente da Assembleia Municipal, João Mimoso de Morais, levou a ideia mais longe. Instituiu as transmissões em directo e online das reuniões, que passaram a ficar  guardadas no canal no YouTube do município. Parecia um caminho sem retorno rumo à abertura à comunidade.


O recuo na transparência


Infelizmente, o caminho da transparência esbarrou agora contra uma parede. Numa altura em que a transmissão das reuniões já era considerada algo natural e banal, um membro da Assembleia Municipal insurgiu-se contra a divulgação da sua “imagem e áudio”. De que terá medo, afinal, este eleito local? Não sei de quem se trata, mas espero que seja vertida em acta essa recusa. Deverá ser dado a conhecer aos eleitores quem é o seu representante que se quer esconder. Temerá que os concidadãos percebam o vazio, a impreparação ou o populismo das suas intervenções? Ou será por falta destas?

Na política, a lógica devia ser a inversa. Quanto mais um político vê as suas propostas e intervenções divulgadas, melhor. Quem aceita exercer um cargo público não pode ter medo da exposição. Pelo contrário, tem a obrigação moral de abrir a sua actividade a toda a comunidade, tanto aos que nele votaram como aos que fizeram outra opção.


Medo de quê?


Não consigo compreender o receio destes eleitos. Recordo que nenhum deles foi obrigado a candidatar-se. As reuniões da Assembleia Municipal são, por lei, actos públicos. A transmissão online nada mais faz do que potenciar esse conceito de praça pública, adaptando-o aos tempos modernos.

Terminar com as transmissões é um retrocesso que desrespeita o passado e empobrece a nossa democracia local. A continuar assim, daqui a nada,  regressaremos ao tempo de ir consultar as actas das reuniões numa sala do segundo piso da biblioteca municipal. Ah, e com um pedido antecipado de consulta. 

domingo, julho 05, 2026

Alto Minho, artigo de 18-06-2026

O futuro da nossa memória colectiva

A segunda edição da Festa dos Arquivos provou que o nosso património documental não se mede em betão, mas em papel e identidade. Ver o distrito do Alto Minho mobilizado nesta semana cultural, a trabalhar em rede e a descentralizar o conhecimento, é um sinal claro de maturidade que merece o nosso maior aplauso. Os arquivos deixaram de ser depósitos poeirentos do passado para se afirmarem como pilares vivos da nossa cidadania e garantias do nosso futuro democrático.

De Arcos de Valdevez a Vila Nova de Cerveira, passando por Caminha, Melgaço, Paredes de Coura, Ponte de Lima, Valença e Viana do Castelo, as instituições uniram-se para abrir as portas à comunidade. Entre mostras, exposições, visitas guiadas aos bastidores da conservação e o lançamento de novos projectos digitais e audiovisuais, a região demonstrou uma dinâmica cultural invulgar.

Viver sem memória é perigoso, o desconhecimento do passado abre caminho a decisões futuras arriscadas. Conhecer as vidas que nos antecederam dá-nos as ferramentas necessárias para construir uma sociedade mais justa. Fica o repto para que visitem estes espaços, valorizem quem neles trabalha e contribuam para que continuem a ser os guardiões da memória viva do nosso Alto Minho.


O rio que nos vai deixando


Quem pertence às gerações que cresceram nas margens do Lima guarda na pele o bronzeado escuro daqueles Verões intermináveis. Bastava um boné na cabeça, a toalha ao pescoço e uma bicicleta BMX para encontrarmos a felicidade. O rio era o epicentro das férias grandes, o palco sagrado onde partilhávamos mergulhos e aventuras. Aprendemos a “ler” o Lima, a respeitar as suas águas e a contornar o capricho, qual maré, das descargas da barragem do Lindoso.

Hoje, a realidade já não permite isso e confronta-nos com uma urgência que não conhece fronteiras. Já se dão alguns passos no sentido certo. Parte da poluição que ameaça o ecossistema encontrou um travão judicial histórico na decisão do Supremo Tribunal de Espanha, onde se exige o fim da contaminação da pecuária intensiva desde a nascente, na Galiza, até ao Lindoso. Esta vitória jurídica demonstra que a despoluição exige firmeza contra quem, durante décadas, violou os direitos das populações e os limites da saúde pública.

Este ímpeto estende-se à sociedade civil. O recente I Congresso Ibérico do Rio Lima, organizado pelo MoLima na Escola Superior Agrária, veio deixar o alerta claro de que o «rio Lima não pode ficar esquecido, como ficou até agora». Recentemente, centenas de alunos uniram-se também na zona ribeirinha de Ponte de Lima para o tradicional “Abraço ao Rio Lima”, um gesto de apelo à responsabilidade que todos temos na defesa do património hídrico.

São, no entanto, necessárias decisões concretas. Essas cabem aos governantes locais que devem honrar o compromisso colectivo, sob pena de o nosso rio definhar até se transformar num postal sem vida.

domingo, junho 14, 2026

Alto Minho, artigo de 09-06-2026

Trabalho invisível 

Quem percorre as artérias de Ponte de Lima logo, após uma feira quinzenal, na manhã seguinte à Vaca das Cordas ou nas longas madrugadas das Feiras Novas, depara-se com um cenário que nunca deixa de surpreender. A vila acorda limpa, renovada e pronta para receber o dia seguinte. A verdade é que este aparente milagre não resulta de qualquer passo de magia, mas do suor, do brio e do sentido de responsabilidade dos trabalhadores de limpeza urbana do Município.

Enquanto a esmagadora maioria de nós recolhe ao aconchego do lar ou prolonga a folia, estes homens e mulheres vestem o colete do serviço público. Enfrentam o cansaço e a dureza das madrugadas para recolher, com uma eficácia cirúrgica, as toneladas de resíduos que as grandes enchentes deixam inevitavelmente para trás. Operam num anonimato quase total, fazendo com que o lixo "desapareça" antes que os primeiros raios de sol comecem a iluminar o património edificado que tanto nos orgulha.

É de realçar o brio profissional desta equipa, vai muito além do simples cumprimento de um horário ou de uma tarefa laboral. Trata-se de um acto de genuíno de civismo e de respeito pela dignidade do nosso território e por cada um de nós, residentes e visitantes. Sim, é um trabalho invisível que deve ser realçado.


Obrigado!


Com o fim dos jogos da formação, é tempo de agradecer aos que, durante a época, trabalharam para que fosse possível a sua existência. Os leitores vão perdoar-me, mas começo por deixar um agradecimento público ao mister João Gomes, aos seus adjuntos, Afonso Velho e Luís Carlos, ao treinador de guarda-redes, Junior Makina, e ao director de equipa, Vítor Vaz. Estes são a equipa técnica que acompanhou, nesta época, a equipa de sub-14 (sub15 B) da Associação Desportiva “Os Limianos”. Faço este destaque pela dedicação, paixão e forma como encararam o seu trabalho, demonstrando uma enorme resiliência ao enfrentarem os vários desafios que foram surgindo ao longo do campeonato. Embora o seu foco fosse o desenvolvimento desportivo dos atletas, nunca deixaram de lado a componente de formação humana. Chegaram mesmo a perder jogos para que os atletas percebessem que, no desporto como na vida, os seus comportamentos têm consequências.

Este agradecimento e reconhecimento alarga-se aos clubes que mantêm as condições e, claro, às centenas de equipas técnicas, não só no futebol, mas em todas as modalidades, que nos treinos, semana após semana, nos jogos, domingo após domingo, abdicam do bem mais precioso, que é o seu tempo, para se dedicarem “aos filhos dos outros”. É muito mais que desporto, é um exemplo de dedicação cívica.

domingo, junho 07, 2026

Alto Minho, artigo de 03-06-2026

Tempo de festa

Por terras limianas, vivem-se dias de festa. Hoje, uma das maiores tradições de Ponte de Lima sai às ruas da vila que é mais antiga que Portugal. Ao final da tarde, milhares de pessoas percorrem as ruas históricas na “companhia” de um touro bravo.

O ritual, já referenciado no século XVI, exige três voltas obrigatórias à Igreja Matriz. Ali, naquele espaço curto, o touro dita as regras e desafia a audácia dos rapazes mais corajosos. Correm, fintam o perigo e, entre um trambolhão e um aplauso da multidão, cumprem um fado antigo que passa de pais para filhos.

Já no areal, ali mesmo ao lado do Rio Lima, o cenário muda. Naquela moldura natural, com as águas calmas a servir de fundo, o touro fica mais solto. Livres da claustrofobia das paredes de pedra, surge espaço para a brincadeira, para a provocação contida e para a comunhão festiva entre o homem e a força da natureza.

Quando o animal recolhe, a vila não adormece. Pelo contrário, desperta para outra noite longa. A música e a animação invadem os bares da zona histórica, estendendo-se madrugada fora.

É nessa mesma noite que ganha vida outra tradição, os tapetes floridos para a procissão do Corpo de Deus. Amanhã, a vila acordará com as ruas ornamentadas, fruto do trabalho noturno dos moradores. No final da tarde, esta procissão, a mais importante de todas, irá percorrer as artérias limianas com a solenidade própria de um acto público de fé.


Recordações que guardam vidas

Talvez esteja a ser influenciado pelas minhas actuais leituras (Joan Didion, por exemplo), mas tenho pensado em algumas pessoas que fizeram parte da minha vida.

Recentemente, lembrei-me do Márcio Patrício. Ninguém o chamava pelos seus dois nomes próprios, talvez apenas a sua mãe… e eu. Conheci o Márcio quando entrei no quinto ano da Escola Preparatória de Ponte de Lima. Devido à proximidade alfabética dos nomes, partilhámos, durante anos, a mesma carteira. Perante os padrões de hoje, poderíamos mesmo dizer que sofremos de "bullying". Por vezes, as crianças não sabem exprimir os seus sentimentos e isso influencia a forma como se relacionam com os seus colegas. Nem se dão conta da crueldade dos seus actos. Mas tudo isso ajudou a cimentar a nossa amizade. Foi, até por isso, que não partilhámos apenas a carteira da escola.

O Márcio Patrício era um aficionado das novas tecnologias, outro ponto que tínhamos em comum. Ele tinha, penso eu, um computador Amiga 500, já não me recordo bem, mas sei que as disquetes de 3,5 polegadas eram a entrada para o mundo dos jogos. Eram bem diferentes das cassetes que eu usava no meu Timex. Graficamente incomparáveis e de uma rapidez que faziam corar as velhas cassetes.

Partilhámos, ainda, os campos de basquetebol. Na EDL, jogámos no campeonato regional, ele como extremo-poste ou mesmo poste, eu como extremo-base. Ele muitas mais vezes titular que eu. Mas, no desporto, o melhor eram mesmo os jogos fora do pavilhão. Era na rua, junto à casa dele ou da minha, com os outros amigos, que os jogos ganhavam outra dimensão. Seria aquilo que hoje a própria Federação Portuguesa de Basquetebol tenta promover, o "Street Basket”, onde tentávamos imitar os nossos “ídolos” da NBA.

A vida, como sempre, vai fazendo o seu percurso. Infelizmente, a do Márcio Patrício foi curta, mas o suficiente para marcar a de outros, como a minha.


domingo, maio 31, 2026

Alto Minho, artigo de 28-05-2026

As nossas praias

Nós, aqui pela região do Alto Minho, orgulhamo-nos da nossa paisagem natural. Com a chegada da época balnear, é de salientar que existem, no nosso distrito, três praias com o selo "Zero Poluição". Ficam todas no concelho de Viana do Castelo, são a da Ínsua, Paçô e Arda.

Alcançar esta distinção exige consistência máxima. São precisos três anos seguidos sem qualquer contaminação microbiológica detetada nas águas. Embora a praia do Forte do Cão, em Caminha, tenha este ano perdido o estatuto, o distrito soma dois novos areais a esta lista de excelência.

Esta oscilação expõe o verdadeiro desafio, a pureza das nossas águas nunca é um dado adquirido nem uma garantia perpétua. A sustentabilidade exige um esforço diário, rigoroso e partilhado por todos. Eis mais um ponto de atração para a região.


O declínio do Compromisso


Ultimamente, dou por mim a pensar se serei de outro tempo. Não consigo aceitar o insulto, a insinuação e a crispação como o novo normal do debate público. Hoje, até os detentores de cargos políticos parecem esquecer que representam instituições e não apenas os seus próprios egos.

Escudados nas “suas redes”, muitos interpelam sem dó nem piedade, rebaixam o adversário e minam qualquer espaço de consenso ou empatia. Procuram a vitória imediata do “gosto” e da partilha, não percebendo que corroem a credibilidade das próprias instituições para as quais foram eleitos para defender.

Quem observa este cenário de fora da bolha política estranha a inversão de valores. Os agentes ponderados, que procuram pontes para a comunidade avançar, são agora rotulados como “os do sistema”. Os novos heróis são os crispados, os que dominam os TikToks desta vida, disparando fel em vídeos virais. É o espetáculo da degradação política em formato de poucos segundos.


Final da época


No futebol, as épocas terminam e os campeões surgem. Na formação, a dedicação e o crescimento desportivo são as grandes vitórias. Claro que os resultados também importam, sobretudo a partir dos 14 ou 15 anos. Contudo, o foco principal deve continuar a ser o crescimento humano dos jovens atletas.

A Associação de Futebol de Viana do Castelo (AFVC), certamente, já planeia a próxima época. O cenário exige reflexão, por exemplo, no confronto com outras Associações, as nossas seleções distritais continuam sem conseguir os melhores resultados. Não é um problema recente, é algo que já vem de trás. Mas esta época marcou o início de mudanças na AFVC, com uma nova direção e novas ideias. Agora que entramos na segunda desta nova era, talvez seja o momento ideal para olhar e rever metodologias, evitando os erros do passado. O olhar crítico deve ser uma constante. O nosso distrito é grande, tem muitos clubes e imensos atletas. Poderá o talento da nossa região ser melhor acompanhado e aproveitado?

domingo, maio 24, 2026

Alto Minho, artigo de 21-05-2026

4 décadas do IPVC

O Instituto Politécnico de Viana do Castelo é um dos maiores motores de transformação e progresso que o Alto Minho conheceu nas últimas décadas. Soube descentralizar o conhecimento e democratizar o acesso ao ensino superior, sendo a rampa de lançamento para que muitas famílias da nossa região vissem orgulhosamente o seu primeiro universitário.

Este percurso de 40 anos abriu horizontes e trouxe uma verdadeira lufada de inovação à nossa região. Foi um desafio enorme, que a instituição só conseguiu vencer porque, como foi dito na sessão comemorativa, soube, desde o primeiro momento, traçar parcerias estratégicas com a comunidade onde está integrada.


Além da Espuma dos Dias


Tenho para mim que a verdadeira intervenção política mede-se pela capacidade de desenhar o futuro e não pela pressa em comentar o presente. Na actualidade, o debate público cede, com demasiada frequência, à tentação de "navegar" nas pequenas polémicas diárias. Este é um exercício estéril que consome energias e desgasta as instituições, afasta os cidadãos da causa pública, dando força aos populistas. O escândalo do momento pode preencher as páginas dos jornais, trazer “gostos” para as redes sociais, mas será que resolve os problemas estruturais da comunidade? 

O papel fundamental de quem está na política activa deveria ser a construção e a apresentação de políticas alternativas sólidas. É na discussão das grandes reformas, no planeamento do território, no desenho de soluções reais para a economia, para a acção social, para a mobilidade que reside a dignidade da política. Mudar a vida das pessoas exige visão a longo prazo, estudo e coragem para debater ideias. A afirmação deveria ser feita pela força das propostas, mas nem sempre é fácil seguir este caminho. Por vezes, sucumbe-se ao que parece ser um atalho para o sucesso político.


40 anos da TURIHAB


No próximo dia 29 de Maio, Ponte de Lima recebe, no Museu dos Terceiros, o VII Encontro Nacional do Turismo de Habitação, onde se celebrarão os 40 anos da TURIHAB. O concelho limiano foi pioneiro neste sector, mas, nos últimos anos, este modelo parece estar afastado da "ribalta" mediática.

Enquanto o debate público se foca no turismo de massas ou no alojamento local urbano, o Turismo de Habitação recolheu-se na sua discrição. No entanto, este aparente afastamento, talvez seja um dos seus maiores trunfos. Numa era de saturação e procura por destinos genuínos, os nossos solares e casas senhoriais oferecem exactamente o que o mercado agora valoriza, a exclusividade, o espaço histórico associado a um acolhimento profundamente personalizado. Trazer o Turismo de Habitação de volta à ribalta é, também, valorização do nosso território.


domingo, maio 17, 2026

Alto Minho, artigo de 14-05-2026

“A Romaria Minhota mais antiga de Portugal”

No dia da comemoração dos 200 anos, foi apresentado o programa e cartaz das Feiras Novas de 2026. No mesmo dia, foi ainda apresentada a actualização da Marca e Logomarca das festas, bem como o livro comemorativo dos 200 anos das Feiras Novas (parabéns, Amândio de Sousa Vieira). Durante a noite, houve baile e foguetes, destacando-se, ainda, a iluminação da igreja de Santo António da Torre Velha que, situando-se entre as velhas pontes romana e medieval, faz parte da paisagem icónica de Ponte de Lima. É de saudar, a propósito, o regresso do diálogo entre a Irmandade e o Município que permitiu este desfecho.

Imbuído pelo espírito festivo, visitei a página oficial (feirasnovas.pt) e deparei-me com a frase que dá título a este texto. Caros responsáveis, não há necessidade de recorrer a "não verdades" para promover o nosso concelho. Se o rigor histórico já é discutível perante seculares romarias vizinhas, o marketing tropeça aqui numa geografia surrealista. Dizer que esta é a “romaria minhota mais antiga de Portugal” é de uma redundância atroz. Se esta é a mais antiga de Portugal, qual será a “romaria minhota” mais antiga do mundo?

As Feiras Novas são gigantes pela sua alegria, pelo folclore e pela gente que as faz. Não precisam de "não verdades" nem de títulos inflacionados para serem grandes. A história de Ponte de Lima é demasiado rica para ser reduzida a slogans que tropeçam na geografia e ignoram o passado.


Apontamento


Sendo, actualmente, as Feiras Novas “A” festa de Ponte de Lima, sabe o leitor que nem sempre estas foram as maiores do concelho? Se recuarmos ao século XIX, à obra "O Minho Pitoresco" de José Augusto Vieira, descobrimos que, naquela época, a grande e notável romaria de Ponte de Lima era a do Senhor do Socorro, na freguesia da Labruja, cujo Santuário foi construído em 1773. 

Descrita como um "extenso formigueiro de gente" que durava três dias, tinha na pancadaria uma quase "condição sine qua non" para que a romaria fosse considerada "bem cumprida". O espectáculo, esse, media-se pelo estrondo do fogo de artifício que era descrito como tendo uma beleza e uma "dinamite" que ousava rivalizar com o famoso fogo da Senhora da Agonia. 


Insólito


Depois do bloqueio institucional que paralisou a vila de Arcozelo nos últimos meses, eis que surge um novo episódio digno de registo nos anais do insólito autárquico. O cenário é quase surreal, o Presidente da Junta apresentou à Assembleia de Freguesia, para discussão e votação, uma "primeira alteração modificativa" ao orçamento de 2026.

Até aqui, nada a apontar, não fosse um detalhe, para que um orçamento possa ser alterado, tem que existir. E a verdade é que não existe. Embora os órgãos tenham finalmente tomado posse, o Presidente da Junta ainda não apresentou qualquer proposta de Orçamento e Plano para o ano de 2026. A oposição social-democrata já baptizou o fenómeno de “criatividade institucional”. O caso, de tão bizarro, poderia até ser lido como uma anedota política, mas a realidade é bem mais séria. Este episódio é o espelho do estado de degradação a que chegou a gestão da “res publica” na segunda vila do concelho de Ponte de Lima. Entre o amadorismo e o contra-senso, a vila de Arcozelo continua à espera de um rumo que a "criatividade" teima em adiar.

domingo, maio 10, 2026

Alto Minho, artigo de 07-05-2026

Bom exemplo


A Santa Casa da Misericórdia de Ponte de Lima apresentou a segunda revista “Fórum Limicorum: cadernos de estudos limianos”. Pelo que tornaram publico, este tem como missão “dar corpo à produção de conhecimentos sócio-humanitários sobre a Ribeira Lima e de constituir um lugar de encontro entre a academia e a boa investigação local.

É interessante verificar que a mais antiga instituição limiana tem demonstrado uma inteligência estratégica invulgar, a de abraçar projetos que não se limitam a divulgar o que “é seu”, mas que promovem, activamente, a história comunitária de todo o concelho. Já não falamos do esforço benevolente de curiosos ou amantes da história local, mas sim de um trabalho científico rigoroso, validado por académicos e assente numa investigação séria.

Não é comum encontrar uma instituição multissecular com tamanha abertura de horizontes e saúde financeira para assumir tal responsabilidade. Ter a coragem de investir na cultura e no conhecimento é, hoje, uma forma nobre de prestar serviço público.


Do baú da memoria


Teria uns 11 ou 12 anos, quando tive o primeiro contacto com um skate. Foi o meu primo Mário Leitão quem me apresentou às pranchas com rodas, incentivando-me a reproduzir as habilidades que ele e os amigos exibiam pelas ruas do bairro da Socomina, em Viana do Castelo. Nessa altura, era no asfalto da rua que se tentavam os primeiros 360º ou o clássico tic-tac.

O meu primeiro skate foi herdado dele, um modelo de prancha pequena, mas já com rodas de borracha. Mais tarde, com o fenómeno do Fido Dido, a mascote de uma marca de refrigerantes, os desportos “radicais” democratizaram-se. Numa altura em que não existiam lojas da especialidade, a não ser no Porto ou em Lisboa, tornou-se possível a um adolescente do interior do Alto Minho juntar uns pontos e aceder a uma prancha mais moderna. Foi o meu caso. Com o Diogo e outros amigos, passámos a dominar as descidas em Faldejães ou a aproveitar o piso liso da estrada do Arquinho, em Arcozelo.

É curioso observar que, mais de duas décadas depois, tenha sido precisamente um Presidente da Junta de Arcozelo, João Barreto, pai do Diogo, a estimular o espírito empreendedor de um grupo de jovens. Esse apoio permitiu que criassem, de forma autónoma, um espaço dedicado ao skate, feito por e para quem ama a modalidade. A verdade é que esse local se tornou, nos últimos anos, uma referência para a comunidade skater regional e mesmo nacional (basta procurar no YouTube). Apesar de ser quase um "lugar secreto", sem placas ou indicações, quem é do meio sabe bem onde o encontrar.

Há muito que não subo para um skate e muito menos coloco a hipótese de arriscar as manobras de outrora. A modalidade mudou muito, chegando inclusive ao patamar de desporto olímpico, mas mantém aquele cariz underground, incompreendido por muitos e praticado por poucos. No entanto, resta-me o orgulho de ver que o meu concelho e a minha freguesia entraram para o mapa desta cultura urbana. 

domingo, maio 03, 2026

Alto Minho, artigo de 30-04-2026

Memória

Passaram 52 anos desde que a Revolução dos Cravos saiu à rua. Hoje, graças ao acesso ao fundo da PIDE, disponível na Torre do Tombo, e ao esforço incansável de investigadores, como José Sousa Vieira, começamos a conhecer a história de dezenas de limianos que sofreram a prisão política. É um trabalho de paciência e rigor que merece o nosso maior aplauso, pois a informação que nos chega é o que nos impede de cair na armadilha da memória seletiva.

Viver sem memória é perigoso. O desconhecimento do que foi a ditadura permite uma romantização que abre caminho a decisões futuras perigosas. Precisamos de saber quem foram estes homens e mulheres para garantir que o nosso tempo não volta a ser como o deles. Muitos foram nossos vizinhos, alguns conhecemos desde sempre, mas nunca esse assunto foi referido. Pode ter sido por pudor, mas o esquecimento não pode prevalecer.

Seria oportuno que o Município de Ponte de Lima promovesse um levantamento exaustivo dos presos políticos limianos. Que se dignifiquem as suas vidas, vidas iguais às nossas, mas marcadas pelo sacrifício da liberdade e por um estigma que, mesmo após o 25 de Abril de 1974, levou alguns a viverem a sua prisão com uma injusta vergonha. 

É fundamental que as gerações futuras conheçam estes rostos e que a comunidade limiana não se esqueça de quem, sem pretender o heroísmo, teve a coragem cívica de escolher o que era justo.


Mesmo sem Internet


Não havia internet, muito menos redes sociais, mas, ainda assim, conseguiram juntar dezenas de jovens. Iniciá-los na ciência, na experiência química, nos primeiros passos do ambientalismo. Hoje a marca é conhecida apenas por ser uma rádio local, mas o GEICE - Grupo de Estudos e Investigação de Ciências Experimentais - foi muito mais. Sem fundos públicos, nasceu em Ponte de Lima, logo depois da revolução, tornando-se um espaço marcante na formação de várias gerações de jovens limianos e altominhotos. Foi nesse âmbito que a ideia das Lagoas de Bertiandos e São Pedro de Arcos, por exemplo, começou a tomar forma. 

Em 2025, passaram 50 anos da fundação. Seria interessante, não só como recordação, mas também como inspiração, que a história desta associação fosse resgatada. Há um nome, ja referido noutras crónicas, que é incontornável no GEICE e nas Lagoas, que é o de António Mario Leitão. Foi fundador, divulgador, promotor. Fica mais um repto à autarquia limiana, porque não promover junto deste, a publicação de um livro que conte a história do Grupo de Estudos e Investigação de Ciências Experimentais. Bem sei que nos últimos anos o GEICE está mais ligado à cidade de Viana do Castelo, mas, porque nascido em terras limianas, deveria ser este concelho a resgatar a importância que teve para centenas de jovens limianos.


O capitão


É uma referência no futebol. É um exemplo para os jovens jogadores da formação do “Os” Limianos. Zé Pedro Cerqueira, o capitão da equipa de Ponte de Lima, terá pendurado as chuteiras. Após uma carreira cheia, termina onde tudo começou, onde mora o seu coração. 

Talvez fosse da sua mensagem corporal, confesso que, apesar de continuar, como o Jardel, “a voar sobre os centrais”, no último jogo no Cruzeiro pressenti este momento. Infelizmente, não tive oportunidade de, nas bancadas do Cruzeiro, levantar-me e bater palmas a um atleta que deixou sempre tudo dentro de campo. Deixo aqui o meu agradecimento, não só pela carreira, mas, como já escrito anteriormente, ser um exemplo de amor ao Limianos e ao futebol para os mais novos.