domingo, março 22, 2026

Alto Minho, artigo de 19-03-2026

Mudanças

Sem grande surpresa, a estrutura do PSD de Ponte de Lima mudou de liderança. Pedro Salvador é o novo líder e, com ele, entra uma equipa que junta experiência e juventude. Numa eleição de lista única, os 84% de votos obtidos dizem muito, mas o que se destaca destas eleições é mesmo a mobilização conseguida. Já não se via há muito, numas eleições internas, uma participação, em muito, superior ao número de candidatos. Isso acontecer num momento em que o PSD de Ponte de Lima está, de facto, partido, desanimado e longe do brilho que o poder costuma atrair, traz de novo esperança. 

Esta nova equipa aparenta saber exatamente onde pisa e o terreno difícil que tem pela frente. Ao aceitarem este desafio, Pedro Salvador e os seus mostram que o que os move não são “cargos”, mas a vontade genuína de fazer o partido renascer. Sendo quase um momento da refundação, espera-se uma nova mobilização e, acima de tudo, um trabalho persistente, junto de cada uma das freguesias. Resta saber se o partido terá a maturidade para converter este ímpeto num verdadeiro sentimento de união. Sem isso, nenhuma tentativa de renascimento terá sucesso.

O caminho para a recuperação do protagonismo do PSD no concelho limiano terá começado, como canta Dillaz; 


“Se olhares pa' o caminho

Vais ver que não são só preciso pernas pa' andar

Também a motivação

Não oiças o que dizem, segue aquilo que sentes

Porque aquilo que sentes é mais do que te dão”


O Verde que se apaga das nossas estradas


Quem vive ou cresceu no Alto Minho guarda, certamente, memórias dos autocarros “do Cura”. Com 66 anos de história ao serviço da região, os seus autocarros de listas verdes fazem parte do nosso imaginário colectivo. Num tempo em que o automóvel não dominava as estradas, era neles que seguíamos para as areias da praia ou nas excursões a Fátima.

A notícia caiu com o peso da inevitabilidade, mas nem por isso com menos impacto, “AV Cura ficou sem licença e teve de ser a AVIC a assegurar transportes no Alto Minho”. O desaparecimento do "Cura" deixa o Alto Minho mais pobre de símbolos, marca o fim de um capítulo na história da mobilidade e da identidade da nossa região.


46 anos


Na passada semana, a vila de Arcozelo celebrou os 46 anos do seu clube de futebol, o ACR Arcozelo. Tendo sido fundado em 1980 com a designação “Arcozelo futebol Clube”, teve, durante décadas, a sua sede no largo da Freiria, na Além da Ponte. Já com outra designação, o clube resiste graças ao esforço e voluntariado de quem lhe dedica o seu tempo. Parabéns a todos os atletas e dirigentes que construíram o clube ao longo destes anos. 

domingo, março 15, 2026

Alto Minho, artigo de 12-03-2026

Curiosidade

Alguns turistas do norte da Europa aproveitam o final do dia para percorrer a rua Manuel Espergueira, em Viana do Castelo. O sol desce sobre a igreja de São Domingos, as lojas preparam-se para encerrar, os turistas vão-se entretendo com algumas curiosidades arquitectónicas. Passaram pela sede do Vianense, a Casa da Vedoria, que alberga o Arquivo Distrital, mas, eis que, antes de chegarem à Casa Espergueira, se detêm e com alguns sorrisos tiram os telemóveis para captar a “curiosidade” que entendem ser digna de recordação, a sede do PCP.

Realmente, uma sede de um partido comunista, na Europa, começa a ser uma raridade. Já não existem muitas. O Partido Comunista Português é já uma raridade entre os seus homónimos europeus, embora com uma representação cada vez mais residual, ainda é dos poucos que mantêm, de certa forma, alguma relevância. Será curioso que, perdendo relevância política, venham a ganhar no turismo de nostalgia (ainda que, na verdade, não se queira voltar ao tempo de que se tem nostalgia).        


Escolhas


Pela primeira vez, os limianos com idade igual ou superior a 18 anos poderão escolher o cartaz das Feiras Novas. Bastará votar por SMS, entre os próximos dias 6 e 29 de março de 2026. Pelo que informou o Município, um júri, de acordo com os critérios definidos, analisou as propostas e seleccionou 10 propostas que serão sujeitas à referida votação. Devo confessar que não aprecio o processo de escolha. Parece-me, por um lado, uma forma de desresponsabilizar quem deveria ter o ónus da escolha, por outro, uma forma de promover, não a qualidade, mas a capacidade de quem tem o engenho de arregimentar votos. 

Os critérios devem ser bem definidos, o júri deve ser diversificado e a escolha deverá partir desse júri. Os políticos devem saber gerir os putrificados comentários nas redes sociais que poderão advir dessa decisão. Afinal de contas, esta máscara “democrática” só servirá para lavar as mãos como Pilatos.  


Árvores


Por vezes, ouvem-se as oposições levantar as bandeiras ecológicas para criticar quem está no poder. No poder local, um dos argumentos usados é o do abate de árvores. Ainda recentemente tivemos que “levar” na imprensa nacional com várias notícias sobre a indignação da oposição por causa do abate de árvores em Lisboa (que afinal tinham sido substituídas por outras menos nocivas para os habitantes). Pois bem, por Ponte de Lima essa é uma critica que não pode ser feita. No centro histórico, e mesmo nos arredores, centenas e centenas de árvores têm sido plantadas em várias ruas e estradas. Árvores de folha caduca ou de folha perene substituíram árvores em fim de vida. Árvores de porte grande, que bloqueavam a vista e deterioravam e bloqueavam passeios, deram lugar a árvores de pequeno porte, sem grande impacto visual e estético. Não se sabe quantas irão sobreviver, mas sabe-se que, se conseguirem chegar à “idade adulta”, representarão uma mudança significativa no ambiente urbano da sede do concelho.   

domingo, março 08, 2026

Alto Minho, artigo de 05-03-2026

As três fraquezas do Ministro José Manuel Fernandes 

José Manuel Fernandes, histórico presidente de Câmara de Vila Verde, deu, pela primeira vez, “nas vistas” do público em geral, enquanto esteve deputado europeu. Quando muitos previam um mandato sem grande história entre Vila Verde e Bruxelas, provou que estava ali para mais, estava ali para realmente representar os portugueses que o tinham elegido. Chegou mesmo a ser distinguido como “Deputado Europeu do Ano” e considerado o eurodeputado português mais influente. Aqui chegados, encontramos a primeira fraqueza. José Manuel Fernandes não faz como muitos políticos que, quando eleitos, logo se esquecem de quem os elegeu. Dá-se mesmo ao desplante de ir ao encontro deles, de criar empatia e, até, resolver ou tudo fazer para resolver os problemas que lhe são colocados pelos seus concidadãos. Onde já se viu um político genuinamente preocupado com as pessoas? 

Outra fraqueza que lhe pode ser apontada é a da pontualidade. Toda a gente sabe que as horas marcadas para eventos, reuniões, compromissos com pessoas importantes, como os políticos, são meramente indicativos. Estes nunca chegam à hora marcada, chegam sempre depois. Mas não é que José Manuel Fernandes, mesmo agora que está Ministro da Agricultura e Pescas, chega sempre pontualmente aos seus compromissos? Será que, em vez de respeitar a referida regra de etiqueta dos “muito importantes”, prefere respeitar os que se vão encontrar com ele? 

Finalmente, a terceira fraqueza. Vindo de fora da bolha mediática de Lisboa, José Manuel Fernandes é um homem do Minho, robusto, afável e simples, directo, longe de ser um “rústico”, e isso é imperdoável. Como é que pode manter a compostura e educação quando confrontado, nacionalmente e em directo nas televisões, com rudeza, inoportunidade e mesmo malcriadez? Isso é que não! 

Nestes tempos polemizados, é reconfortante ter um governante como o actual Ministro da Agricultura e Pescas. 


“À matroca”


Passados quase 5 meses das eleições autárquicas, a vila de Arcozelo continua sem executivo. Na passada semana, ficou-se a saber que as três forças da oposição deram provas de uma maturidade política que tem vindo a faltar em todo o processo. Num gesto de compromisso, uniram-se e redigiram uma carta-compromisso onde fundiram propostas da lista vencedora com as suas próprias, estabelecendo calendários e metas para a realização das mesmas. 

Feita uma reunião com o presidente eleito, onde se chegou a um acordo verbal, ficou este com a responsabilidade de, após validação jurídica, redigir um memorando de entendimento. Infelizmente, o tempo passa, a oposição espera e o documento teima em não aparecer.

Conhece, caro leitor, o termo náutico “à matroca”? É usado quando um barco está à deriva, sem governo ou direção, entregue à sorte das correntes e dos ventos. É nesta posição que se encontra a vila de Arcozelo. Sem rumo! Quando assim é, corre-se o risco de embater na rocha da irrelevância e do atraso. Não será tempo de alguém assumir o leme?

domingo, março 01, 2026

Alto Minho, artigo de 26-02-2026

Ponte pedonal 

Numa crónica de Julho do ano passado, escrevi sobre ser “tempo de pensar na construção de uma ponte pedonal, ciclável, entre Darque e a zona ribeirinha da cidade [Viana do Castelo]. Esta decisão iria revolucionar a mobilidade urbana, tirar pressão à centenária ponte Eiffel, promover o uso de transporte alternativo como a bicicleta e, claro, melhorar, e muito, a qualidade de vida de tantos.”. Na passada semana, a Câmara Municipal de Viana do Castelo veio anunciar que a ponte será em breve uma realidade, existindo, inclusive, uma proposta vencedora de uma ponte “em curva”. O Município sustenta que a escolha por um traçado curvo é “uma mais-valia da solução, não só pelo afastamento à ponte existente, como pelo efeito que provoca na circulação pedonal”. 

As imagens do projecto causaram alguma estranheza, nomeadamente pela aproximação à ponte Eiffel. Esta decisão trará, certamente, polémica e discussão. O importante é que, rapidamente, uma ponte pedonal seja uma realidade para quem circula entre as duas margens da maior cidade do Alto Minho. Espera-se é que seja uma ponte preparada para o movimento pendular e não apenas para passeios de Verão ou de quem visita a cidade. 


Regionalização


O novo presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, resgatou para a discussão publica o tema da regionalização, pedido para se "refletir, estudar e pensar" sobre a mesma. Desde logo, várias personalidades, de presidentes e ex-presidentes de câmara a professores universitários, responderam “presente” juntando-se à discussão, reforçando que a regionalização é urgente para acabar com o "centralismo" e para valorizar o território. No rescaldo dos temporais, houve mesmo quem questionasse se a resposta aos mesmos não teria sido diferente se já existissem regiões. 

E para nós, se a regionalização avançasse, ganharia o Alto Minho alguma coisa ou seria “engolido” pelo Porto ou Braga, por exemplo? Seria interessante ouvir a opinião dos autarcas e agentes políticos do Alto Minho sobre este tema.   


Centro de Estudos Regionais


Por falar em regiões, alguns dos leitores não saberão, mas muitos dos estudos e publicações sobre a nossa história e sobre o espaço físico que ocupamos foram desenvolvidos sob a chancela do Centro de Estudos Regionais (CER). Criado em 1978, o CER tem vindo a desenvolver, ao longo destas décadas, investigação em áreas como a história, a arqueologia, a etnografia, em vários  concelhos do Alto Minho. Através da sua revista anual, publicada em duas séries, desde 1984, são divulgados artigos científicos dessas temáticas que enriquecem o conhecimento sobre a nossa região. 

Por todo o trabalho que tem realizado em prol da região, é mais que merecida a aprovação pela Câmara Municipal de Viana do Castelo, por unanimidade, do parecer favorável à atribuição do estatuto entidade de utilidade pública. Assim este chegue rapidamente.

domingo, fevereiro 22, 2026

Alto Minho, artigo de 19-02-2026

No rescaldo das Presidenciais

É sempre ridículo quando os derrotados das noites eleitorais tentam convencer-nos de que afinal não foi bem assim. Foi o que a distrital do CH procurou fazer aqui, no Alto Minho, relativamente aos resultados do candidato que apoiavam. 

Na segunda volta, como a escolha é entre dois candidatos, já se sabe que há concentração de votos. Entre a primeira volta e a segunda, o candidato apoiado pelo CH conseguiu, no nosso ciclo eleitoral, mais 10 799 votos, um facto logo realçado pela referida distrital e seus apoiantes, muito activos nas redes sociais. A questão é que a realidade teima em demonstrar a enorme derrota do seu candidato, é que o outro candidato, António José Seguro, entre a primeira e a segunda volta, obteve mais 40 983 votos. 

Ventura saiu inequivocamente derrotado destas eleições. Para quem não escondeu querer ser o “líder da direita”, o eleitorado da direita respondeu preferindo votar maioritariamente num moderado do centro esquerda.


Em Arcozelo continuam a marcar passo


No número da passada semana, deste semanário, o presidente da Junta de Freguesia da vila de Arcozelo voltou a criticar a oposição por ainda não haver um executivo na Junta de Freguesia. Alegava que esta situação estava a bloquear a vila de Arcozelo. A verdade é que é publico que a oposição tem feito de tudo para encontrar uma solução. Infelizmente, esse esforço tem esbarrado na arrogância de quem ainda não percebeu que, embora vencendo, não teve a maioria dos votos dos eleitores. 

Não sei se o presidente eleito já se terá apercebido de que o tempo vai passando, as eleições foram há 4 meses, e o que já se comenta na freguesia é que, afinal de contas, não há grande diferença entre a (não) actuação da Junta no passado e a do impasse actual. 


A praia de Moledo


A praia que conheci na minha juventude, e que era reconhecida pela grande extensão de areia entre o paredão, ou o bar de praia, e a água do mar, nos últimos anos, tem vindo a desaparecer. Com as tempestades das últimas semanas, até o velho paredão ficou em risco. De realçar a pronta resposta do município de Caminha. Liliana Silva, a recém eleita presidente da Câmara, não perdeu tempo e tomou logo medidas para minimizar estragos e estabilizar rapidamente o paredão.  


Bailes de Carnaval


Durante décadas, para várias gerações, quando se falava de Carnaval logo eram evocados os bailes organizados pela Associação Humanitária dos Bombeiros de Ponte de Lima, no Teatro Diogo Bernardes. Já mais recentemente, no final do século passado, as festas que permaneceram na memória dos jovens de então são as que um bar, já desaparecido, perto do referido teatro, organizava. Hoje, as memórias são ganhas na EXPOLIMA, na festa de Carnaval da ADL. 

domingo, fevereiro 15, 2026

Alto Minho, artigo de 12-02-2026

Não será populismo?

A Associação Desportiva “Os Limianos” (ADL), pelos seus 73 anos de existência, pela história de sucesso desportivo que carrega e pelo trabalho formativo que todos os dias faz junto de centenas de jovens e crianças, é um clube diferenciado, representativo de Ponte de Lima. Para lá dos treinos dos vários escalões, que decorrem todos os dias, das 18h às 21h, em dois campos, para que todas as equipas possam jogar aos fins-de-semana, por todo o distrito, é necessária uma gestão logística já com uma envergadura profissional. Um exemplo, o “Os Limianos” tem duas equipas de sub15, a A e a B, que competem nos campeonatos da Associação de Futebol de Viana do Castelo, jogando as duas, normalmente, ao domingo de manhã. Por cada jogo, cada uma das equipas, entre jogadores e equipa técnica, é constituída por 18 a 20 pessoas que, mesmo com a ajuda dos pais, tem de se deslocar, cada uma, em pelo menos duas carrinhas. Desportivamente, nos seniores, é o clube que há mais tempo representa o concelho no desporto rei, em campeonatos nacionais. Ainda no passado fim de semana, a equipa de Ponte de Lima jogou na Madeira. 

Pela sua dimensão, se percebe o seu efeito de alavanca, quanto maior e melhor estiver, mais os outros clubes do concelho, com uma vocação mais local, são “puxados” para outros patamares. É por isso estranho, mesmo a roçar o populista, o sentido de voto do vereador eleito pelo PSD na câmara de Ponte de Lima contra o protocolo de colaboração entre o Município de Ponte de Lima e a ADL, para a cedência de um mini-autocarro recondicionado. A justificação de que “uma vez que as outras Associações Desportivas não terão a mesma oportunidade” denuncia um completo desconhecimento da realidade.  


O populismo não reside só nos agentes políticos


Se analisarmos com bom senso, perante uma tempestade sem precedentes seria difícil a ação do Governo (deste ou de outro) ser diferente do que foi. Quando se deixou, logo no início, de ter meios de comunicação e energia elétrica, a percepção da real devastação tornou-se, desde logo, parcial. 

Nos dias seguintes à tempestade, a comunicação social, nomeadamente os canais de notícias, ao invés de informar, preferiu seguir o caminho da exploração do sentimento de insegurança, procurando o sensacionalismo. O desespero das populações, a falta de enquadramento, a hipócrita superioridade moral com que cobriam o que estava a ser feito pelas autoridades de proteção civil deixou a nu o populismo informacional dos canais de notícias. Deixo um exemplo, quando, segundo a REN, foram afectados mais de 5.000 quilómetros de linhas elétricas, os jornalistas confrontavam os responsáveis como se esse trabalho se resolvesse com um estalar de dedos. Talvez esteja a ser injusto. Talvez não seja populismo, talvez seja o reflexo da crise em que a comunicação social vive. A mesma que já não permite ter, no terreno, repórteres seniores, com experiência de profissão e de vida (só vários dias depois é que os vimos) e que parece “viver” apenas em função dos relatórios de “share”.  


domingo, fevereiro 08, 2026

Alto Minho, artigo de 05-02-2026

Oportunidade para elevar o debate político

Depois de um processo iniciado em 2018, no final do ano passado, ultrapassados todos os meandros burocráticos, a maioria no executivo apresentou uma proposta de alteração do PDM. Numa altura em que a proposta está em discussão pública, Vasco Ferraz, em articulação com as Juntas de Freguesia, está a promover sessões públicas de esclarecimento. Nestas sessões, é o presidente a dar a cara pela proposta, respondendo, diretamente, às dúvidas que qualquer munícipe possa colocar. Com esta atitude demonstra confiança, demonstra acreditar na proposta e não ter receio de ser confrontado pelas pessoas. Está, assim, pronto para o debate.

Perante isto, a oposição tem dois caminhos. Continua, inconsequentemente, a fazer comunicados e protestos, tentando alimentar casos e casinhos a que ninguém liga. Ou, percebe que é tempo de fazer política real, de ir para o terreno. Congratularam-se por ter mais candidaturas a juntas de freguesia, não foi? Ouviram-nos quando analisaram a proposta de revisão, certo? Então, porque não incentivar esses seus candidatos, em cada uma das suas freguesias, a participar ativamente nas sessões públicas, solicitando esclarecimentos, fazendo observações e sugestões, democraticamente confrontando o presidente da Câmara com os putativos problemas que esta revisão significa para cada uma das freguesias? 

Dará trabalho, sem dúvida. Mas, se essa participação for feita com espírito democrático, livre e aberto, talvez venham a ser reconhecidos como capazes de trazer algo de bom ao debate e às vidas das pessoas. 


“Náusea”


Na passada semana, a única livraria do concelho de Ponte de Lima, a União, promoveu um encontro com o jornalista e escritor Miguel Carvalho. A “desculpa” para a conversa foi o seu mais recente livro “Por dentro do Chega”.

Tive o gosto e o privilégio de moderar a conversa, e esta não se ficou pela rama. O mais interessante do livro, na minha opinião, são as entrevistas. Todas feitas em “on”, com várias pessoas que foram ou são partidárias do CH. Com elas percebemos o porquê das adesões e o porquê de lá terem saído/fugido.  

Logo no início do livro, o autor avisa que a sua leitura poderá provocar náusea. Depois de ler o livro, depois de falar com o seu autor, percebo, realmente com alguma náusea, que muito do sucesso do CH é fruto da bolha onde os partidos  e a comunicação social nacional vivem. Longe dos problemas reais e concretos das comunidades, perdidos em fátuas polémicas, deixam um vazio pronto a ser preenchido. O problema é que esse vazio foi ocupado, não por quem quer e tem soluções, mas por quem, arvorando-se diferente do sistema, é, na verdade, o que de pior sai desse mesmo sistema. 

domingo, fevereiro 01, 2026

Alto Minho, artigo de 29-01-2026

Constatação

Uma “verdade” que ruiu no passado dia 18 de Janeiro foi a de que o apoio dos líderes autárquicos faz a diferença nas eleições nacionais. Afinal, em nada  influenciam as escolhas dos eleitores do concelho que lideram. 

No nosso distrito, os concelhos mais visitados pelos candidatos presidenciais foram Viana do Castelo, Ponte de Lima e Arcos de Valdevez. Nestes concelhos, os presidentes de Câmara de Viana do Castelo e de Ponte de Lima apoiaram a candidatura de Gouveia e Melo, pois bem, em Viana do Castelo, Melo ficou em quarto e, em Ponte de Lima, em quinto. O presidente da Câmara de Arcos de Valdevez apoiou a candidatura de Marques Mendes, tendo este passado pelas ruas do concelho para sentir uma “onda de apoio”, no entanto, no dia dezoito, obteve naquele concelho um inesperado terceiro lugar.

Há, de facto, uma mudança na mentalidade do eleitorado. Numa eleição não partidária, personalizada, os eleitores assumiram, quase na plenitude, essa premissa. Basta olhar para o nosso distrito para perceber que, por exemplo, comparativamente com eleições presidenciais do passado, o eleitorado “natural” da área social-democrata/centrista retalhou-se em três (Mendes, Cotrim e Melo) e meio (sim, Seguro já conseguiu, nesta primeira volta, captar algum desse eleitorado). 

Assim, temos a escolha entre um Seguro, que inicialmente foi ostracizado pela nomenclatura e estrutura socialista, e que vale mais que o PS, e um Ventura, em contra-ciclo, que ao segurar (quase todos) os eleitores do seu partido, beneficiando da divisão do centro-direita, garantiu a passagem à segunda volta. 

Passada a surpresa, entramos no tempo das escolhas.


A escolha


A segunda volta não será um embate entre a direita ou a esquerda, entre o extremismo ou a moderação, o socialismo ou a extrema direita. Será a escolha entre quem nos dá garantias de estabilidade, cumprimento da Constituição, respeito pelas instituições, pelo primado do direito, pelo respeito ao próximo, e quem não nos dá garantia de nada disso. 

A segunda volta será a escolha daquele que, entre os dois, achamos que tem a “gravitas”, ou seja, a seriedade, dignidade e autoridade necessárias para o desempenho da função presidencial. Não é um referendo ao governo, não é um “cartão vermelho” ao “sistema” ou ao “socialismo. 


Entrevista 


Li a entrevista e o resumo biográfico que o recém-eleito presidente da Câmara de Paredes de Coura, Tiago Cunha, deu aqui ao “Alto Minho”. A sua extrema humildade e desprendimento, o amor à terra e à comunidade, onde sempre esteve envolvido, justificam o seu sucesso eleitoral. Como não gostar de um agente político assim. 

Deve ser bem difícil, o trabalho da oposição. E é, também por isso, que o resultado que o PSD obteve nas autárquicas, em Paredes de Coura, é digno de nota.  

Como seria bom que exemplos de amor e serviço à terra, ao próximo, se multiplicassem no “mundo” da política.   

domingo, janeiro 25, 2026

Alto Minho, artigo de 15-01-2026

Domingo é dia de eleições

Depois de meses de pré-campanha, eis que chegamos, finalmente, à campanha eleitoral. Infelizmente, em vez de melhorar o tempo político, a campanha trouxe à tona uma realidade que há muito não se queria assumir. Vivemos tempos onde a suspeita impera e é promovida, onde a hipocrisia reina e se torna o sal e a pimenta do prato da política. 

A bolha da comunicação social nacional e das redes sociais tornaram-se o vórtex da discussão, arredando os temas que realmente interessam. O que parece importar é a “tracking poll” de uma cadeia de televisão, é que nem se trata de uma sondagem, mas, com a conivência dos média, influencia todo o debate. Faz, inclusive, com que alguns candidatos, que até agora se viam como impolutos, se transformem em profundos populistas, sem escrúpulos, não hesitando em cavalgar não argumentos, fazendo acusações e levantando suspeitas totalmente infundadas, colocando o acusado numa situação onde já não é a acusação que tem de provar o que acusa, mas o acusado a provar a sua inocência. Invertendo o básico princípio do direito da presunção de inocência, aproveitam-se das percepções que essas situações produzem nos eleitores.

Só vejo uma vantagem nisto. Se observarmos bem, rapidamente percebemos quem tem e quem não tem o estatuto e capacidade para que lhe seja confiada, pelos seus concidadãos, a mais alta magistratura do país. 


Jovens na política


A JSD de Ponte de Lima voltou. Li, com bastante interesse, a entrevista do seu novo líder, João Barreiro. Achei curioso que um dos temas que a JSD limiana já abordava em 2009, continue, ainda hoje, a ser actual. Não se compreende que ainda não exista, no nosso concelho, um Conselho Municipal de Juventude. Há uma lei que estabelece o seu regime jurídico, definindo a sua criação, composição e competências. É a Lei n.º 8/2009, de 18 de Fevereiro,  que posiciona o Conselho Municipal de Juventude como um órgão consultivo, obrigatório, que se pretende que seja representativo dos jovens do concelho, que se pronuncia sobre políticas de juventude, com pareceres sobre planos, orçamentos, etc. Por ser um orgão consultivo, onde se promove a participação dos jovens, não se percebe o porquê da não criação no concelho limiano.

Esperemos que a maioria reconheça a sua pertinência e que aconteça como no caso do orçamento participativo, uma ideia apresentada há muitos anos pela oposição, recusada, sistematicamente, por quem liderava o executivo municipal é, hoje, um factor de orgulho, sendo apresentado como exemplo de boas práticas do executivo.  


Uma realidade


A Associação Desportiva “Os Limianos” viu ser assegurado pelo presidente do município de Ponte de Lima, na festa dos seus 73 anos, que o novo estádio vai ser mesmo uma realidade. Tal como escrito por aqui em Novembro, o Municipio de Ponte de Lima pretende, em conjunto com a Associação de Futebol de Viana do Castelo, aproveitar a preparação do Mundial de futebol de 2030 para reforçar a centralidade e atractividade do concelho. Depois do caminho das pedras para alcançar as licenças, tudo indica que, já no inicio deste Verão, teremos o avançar vigoroso do projecto que permitirá o clube mais representativo do concelho a almejar outros voos nas ligas nacionais.  

domingo, janeiro 11, 2026

Alto Minho, artigo de 08-01-2026

Transformação eléctrica

Todos os dias somos abordados pela máxima de que temos de investir na transformação eléctrica. Carros eléctricos, fogão eléctrico, aquecimento da casa elétrico, a electricidade é verde e vem salvar-nos do caos ambiental em que nos embrulhamos. 

Não, caro leitor, não vou escrever sobre a falácia presente nessa visão, vou, apenas e só, descrever uma situação que vivi recentemente. Na noite de Natal, lá para os lados de Sabadão, em pleno centro da vila de Arcozelo, no concelho de Ponte de Lima, várias famílias tiveram de recorrer a botijas de campismo para a confecção da ceia de Natal. O motivo não foi a vontade de viver experiências ao ar livre. Como já reportado há vários meses à E-redes, a energia que chega às casas daquela zona, apesar de paga e contratualizada, não é a suficiente para sequer ligar o fogão eléctrico para preparar as refeições. A luz que ilumina as casas é, digamos, romântica, pelo lusco-fusco e constante piscar, quase parecendo a luz imanada pela chama de velas. Como é possível, apesar das queixas, passarem-se meses e a capacidade da rede eléctrica continuar miserável, longe do contratualizado? Imaginem se, nas centenas de casas que por lá existem, tivessem de carregar carros eléctricos, teríamos, certamente, o colapso da rede na maior freguesia do concelho de Ponte de Lima. 

Ora aqui está um bom tema para os responsáveis políticos locais trabalharem. 


Paradigmas 


Nos últimos 7 anos, quase todos os fins de semana, faça chuva, frio ou calor, tenho percorrido os campos de futebol, um pouco por todo o distrito, assistindo a jogos de formação. Li, aqui no Alto Minho, um artigo sobre formação desportiva e a constatação de uma situação que estará a ocorrer nos campeonatos distritais de futebol de formação. A questão de base seria a motivação que uma equipa, os seus atletas, teriam, quando jogo a pós jogo, perdem por números mais habituais noutras modalidades que não o futebol e até que ponto seria saudável, para a formação daqueles atletas, tal situação. 

Na maioria dos casos, o financiamento dos clubes chega dos apoios municipais, estando estes, normalmente, associados ao número de atletas e competições onde participam. Se não participarem nas competições e se tiverem um “overbooking” de atletas num escalão, perdem a comparticipação municipal e a mensalidade dos pais. Em clubes que vivem do amor ao futebol e à terra, do voluntariado de quem dá o seu tempo, perder o financiamento que permite ao clube a sua sobrevivência é algo naturalmente impensável, que se tende a combater sem se olhar a potenciais vítimas.   

Existindo, em escalões inferiores, muitos atletas, os clubes optam por formar equipas em escalões superiores maioritariamente constituídas por atletas mais novos. Apesar de ser “vendida” a ideia de que tal situação se deve à boa performance dos atletas mais novos, em muitos dos casos, os planteis são “reforçados” por estes de forma a permitir a participação do clube naquele escalão, mantendo os atletas no clube. Em idades em que a diferença de crescimento é deveras notória, facilmente é perceptível o motivo de resultados tão díspares. O desenvolvimento e capacidade física são factores diferenciadores. Por mais que exista treino e qualidade de jogo no processo formativo, se enfrentarem uma equipa em igual patamar formativo, mas com jogadores com quase o dobro do seu peso e altura, será muito difícil alcançar sucesso desportivo.

Talvez se tenha de olhar primeiro para o modelo de financiamento dos clubes e aí, deverá ser a Federação de Futebol a ter uma voz activa junto da Associação Nacional de Municípios Portugueses.      

 

 

domingo, janeiro 04, 2026

Alto Minho, artigo de 30-12-2025

Novo Ano, novas eleições

Com a chegada de 2026 seremos chamados a mais um acto eleitoral. Iremos escolher o Presidente da República, o Chefe de Estado e Comandante Supremo das Forças Armadas. Alguns dirão que já estão fartos de eleições. Realmente, desde 2024, somos chamados, sucessivamente, a fazer escolhas em legislativas, europeias, novamente legislativas e autárquicas. Há, no entanto, que perceber que pior seria se não o pudéssemos fazer. 


Uma porta aberta para o passado


Winston Churchill, parafraseando George Santyana, num discurso de 1948 na Câmara dos Comuns, disse que “aqueles que falham ao aprender com a história estão condenados a repeti-la.”. Os Arquivos são um dos espaços onde podemos encontrar e aprender com a história.

Felizmente, nos 10 municípios do Alto Minho, existem arquivos municipais onde se preservam documentos que fazem a história local. Quase todos eles proporcionam serviços de leitura, de pesquisa nos referidos documentos, sendo que, também, em quase todos eles, podemos encontrar formas digitais de acesso a muito do seu fundo documental. 

O Arquivo Distrital de Viana do Castelo (ADVCT) esteve profundamente ligado à criação desses arquivos. Em 2003, foi criada uma Rede de Arquivos no Alto – Grupo de Trabalho de Arquivistas do Alto Minho, que foi fundamental para a criação de sinergias entre profissionais e arquivos. Depois de algum tempo com alguma limitação de funcionamento, está, novamente, o ADVCT, com os Arquivos Municipais, a revitalizar a referida rede. Um dos objectivos é trazer os arquivos para junto dos cidadãos, e, através da documentação custodiada, dar a conhecer a história da nossa comunidade. As possibilidades são imensas, pelo que os pequenos passos que se estão a dar neste momento terão, certamente, boas repercussões no futuro da memória coletiva.  

 

Decisões difíceis


Com a mudança no executivo municipal de Melgaço, chegou a dura verdade. O encontro com a realidade deu-se quando, após os avisos do presidente José Albano Domingues, saiu a notícia da decisão de suspensão do MDoc – Festival Internacional de Documentário. 

O Bloco de Esquerda logo fez sair um comunicado, onde mencionava o “ataque à cultura”, uniu-se um coro de críticas nas redes sociais, mas, eis que a realidade, essa força que nos devolve à terra, fez perceber o motivo dessa decisão. A realização da edição do ano de 2026 iria custar cerca de 167.000,00 euros. Por mais incrível que pareça, o Município, segundo os actuais responsáveis, não dispõe dessa verba. Para o presidente da Câmara, a escolha era entre “deixar de apoiar as instituições, associações e freguesias do concelho, aumentar exponencialmente as tarifas de serviços básicos como água, saneamento e resíduos sólidos, desinvestir em saúde, educação, habitação e ação social, ou suspender o festival MDoc”. O edil melgacense não teve dúvidas de qual seria a melhor decisão. É nestas alturas, nas decisões difíceis, que se vê quem é eleito para ajudar as populações.