Memória colectiva
O Arquivo Municipal de Ponte de Lima, através da fantástica página Memória de Ponte de Lima (https://memoria.cm-pontedelima.pt/) está a fazer um trabalho de valor incalculável para a preservação da memória da comunidade limiana. Arcos de Valdevez e Melgaço têm percorrido o mesmo caminho, sendo faróis no que se espera que seja um incentivo para os outros concelhos do Alto Minho.
Voltando a Ponte de Lima. Recentemente, foram partilhadas imagens, cedidas pela “Foto Limarense”, retratando uma manifestação de jovens e adolescentes do início da década de 90 do século passado. Trata-se de um conjunto de 13 fotografias da manifestação contra a Prova Geral de Acesso ao ensino superior, a PGA, onde eu também participei. O final do protesto foi no antigo cruzamento na ponte de Nossa Senhora da Guia. Lembro-me do desespero de alguns automobilistas e da tentativa de um em passar pela manifestação. O coitado teve direito a um “teste aos amortecedores”, e só não testou a chaparia por rápida intervenção da polícia. Olhando para aquelas imagens, passados mais de 30 anos, não consigo travar o sentimento saudosista ao reconhecer por lá a minha geração.
A manifestação foi uma de muitas por todo o país. A PGA, pela mão do então Ministro da Educação, António Couto dos Santos, viria a terminar, sendo substituída por um novo sistema de acesso ao ensino superior. Com esse novo sistema, foi implementada uma reforma educativa que culminaria nas provas específicas a cada disciplina. Passado todo este tempo, não sei se o que veio foi ou não melhor, mas sei que, olhando para as fotografias, vejo os rostos dos que, então, sabiam que queriam mudar o mundo.
A vida é feita, também, de memórias, as nossas e da nossa comunidade. O dinheiro público também serve para promover a sua preservação. Felizmente, temos decisores, muitos da geração que participou nessas manifestações, que percebem isso.
Uma escola diferente
A memória anterior, naturalmente, despertou outras. Porque nesta altura do ano o tema “escola” ganha alguma preponderância, recordei-me de como a Escola Secundária de Ponte de Lima, já nessa altura, proporcionava experiências e dinâmicas de ensino diferentes.
A rondar o ano retratado nas fotografias disponibilizadas pelo Arquivo Municipal de Ponte de Lima, 1992, foi possível a um grupo de alunos fazer uma apresentação para a disciplina de português de uma forma diferente do tradicional trabalho escrito. Não, não me refiro aos “acetatos” tão em voga na altura. Na Escola Secundária de Ponte de Lima existia um estúdio de mistura de video e som. Na altura fazia parte de uma sala de audio-visual que não era muito usada. Esse grupo de jovens, com o aval do professor de português e o inesgotável apoio do funcionário responsável, Sr. Braga, conseguiu realizar um pequeno documentário sobre Ponte de Lima e alguns dos seus escritores. Escreveram um guião, realizaram filmagens e criaram um pequeno documentário que viria a influenciar outros colegas a fazerem o mesmo. A filmagens, a realização, a gravação do som, a edição trouxeram uma experiência nova aos alunos que só uma escola com professores com espirito livre é capaz de proporcionar.
Não sei se ainda existe o estúdio, com a evolução tecnológica, é bem provável que não, mas o que se espera é que a escola continue a proporcionar aos seus alunos essa loucura de pensar fora da norma.
