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domingo, abril 09, 2023

Alto Minho, artigo de 05-04-2023

Memória

Quando nasceram, no final do século XIX, não passaria na cabeça dos seus pais que iriam viajar por França e ainda pôr um pezinho na Alemanha. O Paulo (Morais) e o Fernando (Gonçalves) nasceram na vila de Ponte de Lima e na casa dos 20 foram chamados pela pátria. No “milagre de Tancos”, programado pelo seu conterrâneo General Norton de Matos, foram preparados (?) para marcharem para França defender os “interesses” de Portugal.

Mal preparados, mal equipados, sem retaguarda para os render, mal saídos de um inverno extremamente frio e húmido,  enfrentaram, no dia 9 de Abril de 1918, uma das maiores ofensivas militares das forças alemãs na I Grande Guerra. Mais de 55 mil homens carregados com todos os meios, artilharia pesada, gases venenosos, metralhadora, penetraram as linhas portuguesas. O Paulo e o Fernando, além de viverem o terror do avanço alemão sobre as linhas que integravam, foram feitos prisioneiros de guerra e levados para um campo de prisioneiros na Alemanha. Só muitos meses depois, já a guerra tinha terminado, é que regressaram a Portugal e, finalmente, a Ponte de Lima. 

!05 anos depois, a sua “viagem” ainda é recordada. Não só pelas suas famílias mas também por camaradas de outras gerações que não deixam cair no esquecimento os vários jovens, como o Paulo e o Fernando, que, de Ponte de Lima, rumaram para as trincheiras francesas (outros para Africa).  


Páscoa


Depois de 3 anos sem a possibilidade de viver a Páscoa como só o Alto Minho vive, eis que voltamos à nossa “normalidade”, às nossas tradições, ao compasso Pascal. É verdade que em muitas paróquias a tradição já não volta com a força de outrora, noutras, a realidade veio trazer novas formas de a viver, mas, na generalidade das terras e recantos alto-minhotos, o som das campainhas, o entrar e sair de casa em casa, os sinos e foguetes, a alegria serão o mote do próximo domingo. 



Democracia


Não há democracia sem cidadãos esclarecidos, não há democracia sem liberdade de pensamento ou de discurso, não há democracia sem escrutínio. O jornalismo livre é um dos pilares fundamentais das democracias. 

Um jornal regional, como este que o leitor está a ler, com reconhecida qualidade gráfica, e, acima de tudo, editorial, que sai para a rua com periodicidade certa; com jornalismo de qualidade, que produz notícias da região, não se limitando a uma mera reprodução de comunicados ou de notícias de gabinetes e agências de comunicação; que faz entrevistas que retiram “sumo” aos entrevistados, porque abriga uma equipa de jornalistas, com formação e carteira profissional, com salários em dia, motivados; um jornal que capta a realidade da região e que é uma referência é, certamente, para alguns dos que se acham “poderosos”, uma ameaça. Há os que não apreciam porque sabem que, em democracia, como já anteriormente escrevi, os cidadãos esclarecidos tendem a não tolerar a mediocridade.

Obrigado a todos os profissionais que por aqui também constroem a nossa democracia.

domingo, novembro 20, 2022

Alto Minho, artigo de 16-11-2022

Onde estão os amigos?

Olhando à situação do ex-secretário de Estado, Miguel Alves, tenho-me questionado se não terá amigos. Sim, amigos daqueles verdadeiros que não fazem parte da política, mas da vida normal. 

Há muitos anos, tive o privilégio de conhecer um veterano de instituições internacionais. Conhecemo-nos melhor num dia em que um amigo comum tomava posse num cargo de grande responsabilidade regional. No meio da conversa, disse-me, num tom de voz solene, que nós, os amigos, é que temos a grande responsabilidade de assegurar que os que assumem posições de serviço mantêm os pés na realidade. O normal é, com o andar do tempo, passarem a viver numa bolha, logo só quem lhes pode dizer tudo com verdade, olhando-os olhos nos olhos, é que conseguirá trazê-los de volta à realidade.

Nesta altura, pergunto-me: Onde estiveram os seus amigos?


Será hipocrisia? 


Neste momento, quase todos em Portugal criticam Miguel Alves, o empresário e mesmo o primeiro Ministro. A verdade é que nada do que agora se critica era desconhecido, pelo menos em Caminha e no Alto Minho. É consultar, por exemplo, as páginas deste jornal do ano de 2020 onde se pode verificar como a líder da oposição, Liliana Silva, criticou o negócio e os vários comunicados da oposição a denunciar a situação. Muitas das pessoas que agora se indignam, nessa altura não o fizeram. Miguel Alves até voltou a ganhar as eleições de 2021.

Esta é uma das maiores dificuldades que os que se sentam na oposição enfrentam. Mesmo quando conseguem explicar localmente as razões das suas posições ou denunciar situações menos claras, as pessoas não as valorizam. 

Será que a gravidade dos casos aumenta por passarem a ter visibilidade nacional? Nós, os eleitores, não deveríamos precisar desse mediatismo nacional para nos indignarmos, para exigirmos responsabilidades. Será hipocrisia, subserviência ao poder? Será que só reagimos quando sabemos que o poder se esvaiu? 

Nos países de cultura anglo-saxónica, existe a “tradição” do escrutínio direto dos eleitos. Estes têm de dar contas em reuniões comunitárias, onde os seus eleitores os confrontam com os problemas, com as noticias, com as posições por eles tomadas. Por cá, infelizmente, a prática é de apenas participarmos nas eleições e, mesmo nessas, em cada vez menor número. 

É preciso estar mais atento à comunicação social regional e local, apoiá-la, participar nas reuniões dos orgãos políticos, exigir mais aos nossos eleitos.


Armistício


Completaram-se, no passado dia 11 de Novembro, 104 anos do armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. Por cá, o núcleo da Liga dos Combatentes de Ponte de Lima assinalou o dia depositando uma coroa de flores junto do monumento aos combatentes limianos que tombaram nas guerras do século XX. 

Esta é uma data que deveria estar na memória de muitas famílias limianas, foram muitos os limianos que partiram para França. Muitos não voltaram, mas, graças ao armistício, muitos outros voltaram e puderam constituir família.