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domingo, julho 27, 2025

Alto Minho, artigo de 24-07-2025

Porque não?

Há um movimento pendular diário enorme entre a freguesia de Darque e a cidade de Viana do Castelo. Sem alternativa, quem reside em Darque ou desespera na travessia da ponte em automóvel ou sujeita-se aos custos e à imposição de horários dos cada vez mais diminutos transportes públicos. É verdade que podem sempre partir à aventura e atravessar a ponte a pé, mas, com apenas um passeio onde não cruzam duas pessoas sem que alguma delas desça à via automóvel, será uma escolha arriscada.

É tempo de pensar na construção de uma ponte pedonal, ciclável, entre Darque e a zona ribeirinha da cidade. Esta decisão iria revolucionar a mobilidade urbana, tirar pressão à centenária ponte Eiffel, promover o uso de transporte alternativo como a bicicleta e, claro, melhorar, e muito, a qualidade de vida de tantos.


Mudança de mentalidades


Já tinha escrito sobre esta mudança de paradigma no concelho limiano, as mulheres, finalmente, assumem um papel de destaque nas eleições autárquicas.

Depois do movimento “Ponte de Lima Minha Terra”, eis que o Partido Comunista Português surpreende, apresentando também duas mulheres na liderança das listas aos órgãos municipais. Sandra Fernandes encabeça a lista à Câmara Municipal e Patrícia Moreira a lista à Assembleia Municipal. Se no movimento apenas a candidata à Câmara Municipal, Zita Fernandes, tem conhecida experiência política, as candidatas do PCP são sobejamente reconhecidas pela sua participação enquanto eleitas em órgãos autárquicos e em movimentos associativos/cívicos. 

No contacto que tive com elas, enquanto eleito, sempre consegui fazer pontes por forma a trazer avanços na “res publica” local. Apesar de origem ideológica bem diferente, nunca obtive delas respostas preconceituosas, ao contrário de outros seus camaradas.

Numa altura que se ultimam as listas, é bom que as mulheres tomem um lugar que, mais do que por imposição legal, é delas por direito próprio. 

 

Mudanças


Talvez quem viva no centro histórico tenha uma maior percepção das casas  que de um momento para o outro se esvaziam de vida. A casa à frente da nossa deixa de ter vida, porque a senhora de idade que aí vivia já não tem condições físicas e mentais para viver sozinha e foi encaminhada para uma instituição. A casa seguinte de um dia para o outro deixa de abrir as portadas, as flores, antes tratadas com esmero, começam a secar, é, então, que se sabe que a sua moradora foi, entretanto, internada. A solidão, associada à idade muito avançada, prolifera nos centros históricos da nossa região. 

A contradizer esta realidade aparecem as famílias de imigrantes, normalmente oriundos da América Latina, como Brasil, Colombia, Venezuela, que trazem o riso e a curiosidade das crianças, e novas vidas para as casas dos centros históricos. É um ciclo que se fecha, mas, mais importante, é outro que se abre e renova os centros das nossas vilas e cidades. 

domingo, julho 23, 2023

Alto Minho, artigo de 19-07-2023

 O maior encontro de jovens no mundo

Após um ano de preparação, de encontros, reuniões, trabalho e oração, a hora da partida chegou. As Jornadas Mundiais da Juventude de 2002, em Toronto, estavam prestes a começar. O primeiro passo foi um voo de cerca de 7 horas e meia. Chegados a Toronto, a primeira surpresa, o forte calor seco não tinha comparação com nada conhecido. À nossa espera autocarros que apenas conhecíamos dos filmes, aqueles amarelos das escolas, que nos levaram para centros de acolhimento. Por lá encontramos sorridentes famílias de várias paróquias pelas quais fomos divididos. Ainda não sabíamos, mas o nosso pequeno grupo foi dividido praticamente por um daqueles típicos bairros de subúrbios americanos das sitcoms da TV dos anos 80 e 90. Seria uma semana memorável.

As famílias estavam mesmo contentes por nos receber, tinham curiosidade em nos conhecer, em conhecer a nossa realidade. Para além de nos acolherem como membros das suas famílias, prepararam encontros comunitários, passeios, celebrações e momentos de descontração. A simpatia e generosidade com que fomos recebidos fez com que a experiência ainda hoje perdure na memórias de todos os participantes.

Será isso que, dentro de dias, a comunidade da diocese de Viana do Castelo irá proporcionar aos jovens vindos de 12 países diferentes e que viverão a pré-jornada (Jornada Mundial da Juventude) na nossa diocese.


Sim, mas…


Os centros históricos, as aldeias da nossa região são apetecíveis locais para filmagens e organização de eventos culturais ou desportivos. São cenários de excelência que criam um ambiente único. No entanto, é necessário, para quem organiza e para quem autoriza tais eventos, ter em conta um simples, mas muito importante, pormenor. Mais do que espaços cénicos, os centros históricos são, ou deveriam ser, espaços de e com vida. Quando escrevo “vida”, refiro-me a pessoas que por lá vivem, ou seja, por lá habitam, fazendo o seu dia-a-dia, como deslocarem-se para os seus trabalhos, por lá descansam, fazem compras… 

No passado fim de semana, realizou-se no bairro histórico d`Além da Ponte, na vila de Arcozelo, em Ponte de Lima, uma feira medieval e não é que os organizadores pensaram nos moradores! Talvez porque organizada pela associação “Muda Tu” constituída, basicamente, por jovens voluntários que têm por missão ajudar a população mais vulnerável do concelho de Ponte de Lima, tiveram a gentileza e coragem de bater às portas dos moradores para explicar o que ia acontecer e o que tinham programado para tentar minimizar os “danos” pela ocupação do seu bairro. 

 

Feira do Livro


Chegou aquela altura do ano em que nos podemos perder nas bancas cheias de livros. A 27.ª Feira do Livro de Ponte de Lima realiza-se a partir de amanhã até ao próximo fim de semana, na Expolima.

domingo, junho 04, 2023

Alto Minho, artigo de 31-05-2023

 


O fim de uma era

Perde-se no fundo da minha memória as vezes que, vindo da Escola Secundária de Ponte de Lima,  descia pela Lapa até à avenida António Feijó, virava à direita, bebia da água da fonte da vila e entrava no Gerinho para comer um lenço. Há quem prefira as bolas de Berlim, alguns dizem que bem melhores que as conhecidas e afamadas do vizinho concelho de Viana do Castelo, eu mantinha-me fiel aos lenços, gosto que partilhava com a minha companhia. 

Recentemente a pastelaria Vilar, outro espaço emblemático que também adoçava o palato de Ponte de Lima, fechou portas. Recentemente soubemos que a pastelaria Bijou, também conhecida pelo nome do antigo dono, o já referido “Gerinho”, vai encerrar as suas portas.  

São várias as casas comerciais históricas que, nos últimos anos fecharam. Fruto dos tempos modernos, do falecimento dos seus donos, de tantos motivos… A verdade é que, como comércios históricos, entraram nas nossas casas durante anos, acompanharam gerações das famílias limianas e, por isso, a nós, que nos “calha” ver o seu encerramento, é inevitável que deixe um vazio. Neste caso, não podemos deixar de pensar nos já referidos lenços ou nos bolos de anos que vemos nas fotografias analógicas que encontramos amareladas em alguns álbuns que por vezes visitamos.


Os centros históricos pelos tempos


Com a desertificação dos centros históricos não é só o património edificado que se vai alterando, por vezes degradando-se, mas toda a história social que desaparece da memória colectiva. Na passada semana, tive a sorte de participar no II Seminário de Património Cultural - “Olhar o passado, pensar o presente e perspectivar o futuro” na Universidade do Minho. Uma das intervenções foi a de Antero Ferreira, o diretor da Casa de Sarmento – Centro de Estudos do Património deu o exemplo de Guimarães, mostrando como, através do cruzamento de vários dados recolhidos em diferentes fontes, de livros paroquiais a Róis de confessados, e novas tecnologias, é possível reconstituir não só a parte edificada, entretanto desaparecida, mas também a história da ocupação humana com “rostos”. Isto com a simplicidade de quem consulta um qualquer programa ou site de geomapeamento.

Este é um projecto com uma base de acção assente essencialmente em voluntários, mas que deveria ser conhecido e acarinhado pelo poder autárquico, ainda mais por aqueles que gerem centros históricos de referência.  


Novamente


Bem sei que escrevo várias vezes sobre este assunto, mas não posso deixar de realçar a importância do investimento nos transportes públicos, na nossa região, que verdadeiramente tragam uma alternativa de mobilidade aos alto-minhotos. Já se vão ouvindo vozes vindas da sociedade civil a reivindicar investimentos nesta área. Mas, caro leitor, não acha estranho que os partidos do chamado arco governativo, os seus responsáveis locais mantenham praticamente um silêncio ensurdecedor sobre a temática? É tempo de unir, ultrapassar momentâneos interesses partidários, e reivindicar para a nossa região o que outros já têm, a capacidade de ter uma alternativa viável de transporte não só dentro do distrito mas para as viagens pendulares que milhares de alto minhotos fazem para os distritos de Braga ou Porto. 

domingo, maio 28, 2023

Alto Minho, artigo de 24-05-2023

 


Domingo de bola

No passado fim de semana, ninguém conseguiu fugir do futebol. Não, não falo dos jogos que foram transmitidos nas televisões. Primeiro, no sábado, o Vianense com a vitória sobre o Salgueiros mantém a luta acesa pela subida à III Liga. No domingo, todos os olhos se viraram para o derby limiano entre “Os Limianos” e o Fachense e para o jogo entre o Atletico dos Arcos e o Lanheses. Nestes jogos poder-se-ia decidir o campeonato distrital da 1ª divisão e a consequente subida ao Campeonato Nacional. Não desiludiu, o Atletico, que seguia de perto “Os Limianos”, foi derrotado no campo do Lanheses, já a equipa limiana venceu o jogo com o Fachense, garantindo o titulo distrital e a subida para o escalão nacional, de onde tinha descido na última época.


Estabilidade


A verdade é que o resultado do clube de Ponte de Lima é fruto de muito trabalho e da estabilidade directiva que alcançou há seis anos. Na passada semana, Jaime Matos e a sua equipa diretiva, foi reconduzido pelos sócios na liderança dos destinos d`”Os Limianos”. No final do mandato, será o presidente e a direcção com mais anos no desempenho de funções no clube. A estabilidade diretiva, a estabilidade de um projecto que pretende alavancar o clube para outro patamar tem dado frutos. Na formação, as equipas estão ou lutam pelos nacionais, nos mais pequenos o foco é a aprendizagem, a camaradagem que valem muito mais que o ganhar pelo ganhar. Com as contas controladas, a gestão é feita com passos seguros, sem euforias. 

Com a estrutura que se tem vindo a construir, se a isso se associar a renovação ou a criação de um novo espaço, mais abrangente, de jogo, o concelho limiano terá condições para conseguir ter uma estável representação no futebol nacional. Poderá, inclusive, posteriormente, almejar patamares ainda mais elevados.  


Árvores


Bem sei que, principalmente nos tempo que vivemos, não se cortam arvores. Mas, nesta altura do ano, o centro histórico de Ponte de Lima é invadido por uns flocos no género de algodão que muito, mas mesmo muito, prejudicam a qualidade de vida de vários cidadãos que vivem com problemas de alergologia. 

As alergias são uma doença que cada vez mais pessoas sofrem e é por isso que as plantações de árvores nos espaços públicos devem ser bem planeadas e a pensar em todos os que usufruem dos espaços. A situação descrita no primeiro parágrafo agudizou-se com o crescimento das arvores colocadas paralelamente à avenida de S. João. É verdade que elas são produtoras de frondosa sombra, mas a péssima qualidade de vida que provocam deve levar os nossos responsáveis pelo espaço público a questionar a pertinência da sua paulatina substituição. 

Bem sei que a decisão não é fácil, mas o que não se pode fazer é olhar para o lado como se nada se passasse e condenar os nossos concidadãos a terríveis momentos de muito má qualidade de vida. 

domingo, maio 07, 2023

Alto Minho, artigo de 03-05-2023

 Maio maduro maio…

Entrou o mês de Maio e com ele, na nossa região, as ombreiras das portas, as janelas e varandas foram “pintadas” de amarelo dos maios. Seja por superstição ou tradição, é uma peculiaridade do passado ainda muito presente e enraizada. 

Felizmente, os responsáveis autárquicos, das freguesias às câmara municipais, têm ajudado a preservar esta tradição promovendo iniciativas, como concursos e exposições, que a ajudam a manter viva na versão “mais elaborada” das coroas de Maio. 


Porque não?


Com a chegada dos dias quentes sente-se a cada vez maior pressão das visitas ao centro histórico limiano. Ao fim de semana, a ponte medieval fica repleta de famílias a aproveitar a nossa “varanda” para o vale do Lima. Com elas chegam os automóveis, o areal, não vou agora escreve sobre a polémica discussão da pertinência ou não do aparcamento nesse local, enche, as ruas dos bairros contíguos são ocupadas pelos visitantes. É mau? Não, não é. A chegada de visitantes significa também a ocupação de mesas nos restaurantes e cafés, a visita a lojas, compras no nosso comércio. Não se pode, no entanto, descuidar quem dá real vida ao centro histórico e esses são os seus moradores. Podem começar por pequenas decisões, por exemplo, permitir o estacionamento exclusivo para moradores, em horas noturnas (das 20.30h às 8.30h), em ruas do centro histórico. Como esta, existem várias opções de descriminação positiva, comuns noutros locais com centros históricos tão atrativos como o nosso, com um custo reduzido ou mesmo inexistente, mas com um impacto positivo e importante na vida das pessoas.



Crónica, não crítica


Uns amigos e leitores questionaram-me sobre o porquê de não criticar mais. Comecei por lhes dizer que nunca foi o meu objetivo, quer na participação pública quer nas minhas crónicas, a critica pela critica. Dou a minha opinião, critico aquilo com que não concordo e louvo o que acho que está bem. Foi por isso que, por exemplo, estando presidente de um partido em Ponte de Lima, propus a atribuição do nome do primeiro presidente eleito em democracia, João Abreu e Lima, histórico do CDS, para constar na toponímia limiana. Na altura, esta proposta criou burburinho e algum mau estar, até dentro de algumas facções do meu partido. A verdade era uma, independentemente de partidos, das lutas políticas da época, a proposta de homenagem era de elementar justiça. Sempre olhei para a intervenção publica como a forma de estar ao serviço da comunidade e não de partidos ou de grupos partidários. 

Um desses meus amigos insistiu, devia criticar mais o executivo municipal. Não concordei. Pelo que se pode observar da vida política em Ponte de Lima, tirando uns casos, quase todos regimentais, nas reuniões do executivo entre os vereadores da oposição e o presidente da câmara a verdade é que o PSD, o PS e o PLMT desapareceram da acção política. Alguém sabe o que os partidos da oposição têm defendido para o concelho? Alguém lhes conhece uma tomada de posição sobre algum assunto? Alguém conhece algum comunicado sobre alguma opção ou tema importante para a vida da comunidade limiana? Se os políticos e os seus partidos aparentam não encontrar nada nem têm qualquer alternativa, porque esperam esses meus amigos que seja o cronista a assumir esse papel? 

O cronista continuará a escrever sobre o que vê, sobre o que sente, sobre o que gosta, sobre o que gostaria de ver, sentir e gostar. 

domingo, julho 31, 2022

Alto Minho, artigo de 27-07-2022

 

Estão a chegar

Depois de 2 anos em que a pandemia limitou as deslocações, não permitindo que muitos emigrantes voltassem, eis que os nosso compatriotas, que tiveram que sair do país para “ganharem” a sua vida, regressam à sua terra. Já se veem muitos carros com as matriculas de França, Suíça, Andorra… Os espaços passam a ser ocupados com as misturas linguisticas, tão normais e características de quem passa um ano a trabalhar fora das terras lusas. 

O voltar, nem que não seja por uns dias, o rever lugares e pessoas funcionam para eles como que um bálsamo para o restante e árduo ano.  


Pelo centro histórico


Já não é a primeira vez que escrevo sobre o assunto, pois o aumento de pessoas e automóveis torna ainda mais visível a necessidade de criar um cartão ou passe para que os que vivem no centro histórico sejam alvo de descriminação positiva no que concerne ao estacionamento. Algo simples, ao jeito do que se encontra noutros centros históricos de outras terras, como limitar ou permitir o estacionamento a moradores das 20.30h às 8.30h. Seria mais um elemento atrativo para a permanência de moradores na zona histórica e uma forma de manter a vida por lá.


Difícil


O passado fim de semana foi de escolhas difíceis. As atividades disponíveis na zona histórica de Ponte de Lima foram imensas: música, literatura, tertúlias, desporto. A zona histórica foi invadida por muitas actividades que juntaram um mar de gente pelas ruas e espaços da sede do concelho limiano. 

É bom sinal quando se torna difícil escolher entre várias ofertas culturais. 


Férias


O Grande Joaquim de Magalhães Fernandes Barreiros, mais conhecido por Quim Barreiros, canta que o melhor dia para casar “é o 31 de Julho porque a seguir entra Agosto”. Também no caso das férias se espera que assim seja. Por entrar de férias, vou fazer um pequena pausa neste espaço. Agradeço aos meus leitores a confiança. Voltaremos a encontrar-nos, renovados, brevemente. Boas férias. 

domingo, maio 29, 2022

Alto Minho, artigo de 25-05-2022

 Diversidade e vida

Aposto que o meu caro leitor sente tanto gosto como eu em passear pelos centros históricos das nossas terras. Todos os dias percorro o centro histórico da nossa capital de distrito. O rico centro histórico de Viana do Castelo é constituído por várias edificações históricas, igrejas de várias épocas e casas que marcam, como ondas, a comunidade vianense. Casas de res-do chão paredes meias com casas com pés direitos enormes, casas com azulejos, casas com reboco, casas com estucaria antiga, casas humildes juntas a casas com pedra de armas. 

Tal como as casas são várias e diferentes, também os seus habitantes são de várias origens. É interessante verificar o fenómeno que se vive no centro histórico vianense. Durante anos foram afastando os habitantes do centro histórico. As novas construções na periferia, os prédios e urbanizações de blocos passaram a ser mais atrativos que a recuperação das velhas casas das históricas freguesias da cidade. A falta de opções na construção, as limitações para a recuperação e ocupação do espaço afastaram as pessoas, muitas das tradicionais famílias deixaram de viver na Ribeira, na rua da Bandeira, na Espregueira, na Gramática. 

Com esse afastamento, a cidade deixou de ter vida a partir das 19 horas. Assim foi durante anos, desertificação, degradação, a vida foi-se esvaíndo da cidade. Mas eis que, nos últimos anos, a diversidade cultural deixou de ser algo de outras andanças. A cidade começou a dar sinais de vida, ténues, mas indisfarçáveis. Desde sul americanos, predominantemente brasileiros, a indianos e paquistaneses, passando por africanos e asiáticos, mesmo europeus de outras paragens mais a norte, todos os dias é vê-los a sair das casas do centro histórico, muitos em bicicletas ou trotinetes elétricas, uns a caminho dos seus trabalhos, outros a abrir os seus negócios, outros ainda a levar os seus filhos à escola. Os centros históricos devem ser isto, alforges de vida e de vidas, de urbanidade e diversidade. A nossa capital de distrito só tem a ganhar com o que por lá se vê. 


Carrega Pimenta


No passado sábado, dia 21 de Maio, apareceu-me uma recordação do Fernando Pimenta vinda de 2011. Lembrou-me de uma medalha de prata em K1 numa Taça do Mundo. Não foi uma qualquer, foi a primeira que o olímpico Pimenta ganhou em K1 numa Taça do Mundo. Passaram 11 anos e no mesmo dia 21 de Maio, mas de 2022, no mesmo local e na mesma categoria, voltámos a comemorar, mas, desta feita, mais uma medalha de ouro.

Onze anos de grandes vitórias, de grandes sacrifícios, de muito trabalho, de superação. Fernando Pimenta faz parte do “Hall of Fame” do desporto de alta competição. É um orgulho ter um limiano como embaixador do desporto de topo português.  


Alertas


Apesar de muita gente negar a sua existência, pura e simplesmente por não ter memória, a verdade é que em fotografias antigas se vêem grades nas duas margens junto à ponte velha de Ponte de Lima. Algures no inicio do século XX, com as obras de recuperação, retiraram o gradeamento e nunca mais lá foi colocado. 

Já li alguns artigos e ouvi intervenções na Assembleia Municipal que alertavam para o perigo da não existência de grades no passeio em frente ao largo de Camões e em frente à igreja da Torre Velha. Infelizmente, sem grande aceitação. No passado domingo, uma criança caiu naquele espaço, felizmente sem consequências graves. Talvez seja o momento de ouvir os alertas.


Foto:Centro Português de Fotografia - cpf.pt




domingo, maio 08, 2022

Alto Minho, artigo de 04-05-2022

Será que finalmente…?

Foi com satisfação que li que um dos assuntos recorrentemente “falado” neste espaço já é visto como algo prioritário por um dos responsáveis políticos do município de Ponte de Lima. Paulo Sousa, vice-presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima, assume a necessidade de investimento, programação e gestão dos transportes públicos. 

Na verdade, sem esse investimento, sem uma verdadeira gestão que vá ao encontro das necessidades da comunidade não conseguiremos, por exemplo, diminuir a pegada ecológica (não, não é com carros elétricos que lá vamos), nem tão pouco construir uma região verdadeiramente integrada numa unicidade económica e cultural.

No vizinho distrito de Braga já se pensa em metro de superfície a ligar as principais cidades. Por cá, ainda se desperta para a necessidade de olhar, coordenadamente, para uma rede de transportes rodoviários. 

O melhor será pensar que estes pequenos passos são a forma de percorrer um caminho consistente para, pelo menos no que à movimentação da população diz respeito, colocar esta terra litoral, mas com índices de desenvolvimento de interioridade, em patamares equitativos com as que nos rodeiam. 

Não existe mais margem de manobra. Os nossos representantes têm de encontrar e aplicar novos caminhos para os desafios que a região e a nossa comunidade enfrentam. Já não há tempo para jogos de política de salão, dos interesses pequeno-partidários. 


Avanços


Com o abrandamento da pandemia, com o terminar das restrições, é um regalo verificar o regresso dos visitantes ao comercio, à restauração. Ponte de Lima, vila, volta a ter filas para os restaurantes, volta ter a ponte e a marginal a abarrotar de pessoas. 

Muitos espaços na zona histórica voltam a ter a aparência de outros tempos, atraindo a visita de milhares de forasteiros. Já é possível cruzar com vários grupos a falar diferentes idiomas. De um momento para o outro, é possível ouvir inglês, nos metros seguintes alemão e, logo a seguir, dar a vez ao francês ou ao espanhol. 

Não deixa de ser necessário olhar com atenção para alguns aspectos. Será imperativo, por exemplo, criar condições para absorver harmoniosamente essas visitas no dia a dia de quem vive no centro histórico. O respeito pelo descanso e a ocupação do espaço público deverá ser uma das preocupações para quem decide licenças e faz a gestão do espaço.





Música


Porque não voltar a promover um dos nossos maiores “produtos endógenos”, a criatividade dos nossos jovens, com um festival de música de bandas ou artistas de “garagem”? Um festival com o único objectivo da partilha do gosto pela música. 

Nos anos 90, encontros/festivais deste género deram vida e ânimo à criatividade de centenas de jovens que nesses eventos tiveram a oportunidade de tocar para um público que ia além dos seus amigos. 

Temos bons espaços para atividades desse género. Não tem, nem seria a melhor opção, de ser realizada num espaço fechado. Duas sugestões, o Largo da Alegria, antigo Largo Alexandre Herculano, ou o Largo das Pereiras. O custo de realização será reduzido, mas o ganho, esse, será sempre enorme.

domingo, março 27, 2022

Alto Minho, artigo de 23-03-2022


Para a memória coletiva


Escrevo esta crónica num domingo à tarde. O tempo está agradável e sente-se a Primavera que entra. São muitas as pessoas que atravessam a ponte medieval limiana, observam as calmas águas do rio Lima ou as andorinhas que já fazem o seu voo acrobático por cima da ponte, descendo e cruzando os arcos, inundando o ar com o seu chilrear. 

Um cenário idêntico poderiam ter vivido, há 6 gerações, os limianos que atravessavam a ponte no final de Março de 1809. Infelizmente, não seria assim. Viveriam uma experiência muito próxima da que agora vive o povo ucraniano. As tropas francesas continuavam por Portugal. Depois de tomarem Braga, a caminho do Porto, de forma a construir um corredor entre o norte de Portugal e a Galiza, deslocaram dois batalhões, comandados pelos generais Hendelet e Lorges, para Barcelos, seguindo juntos para tomar Ponte de Lima e, aí, atravessar o Lima rumo às outras localidades do Alto Minho. Chegaram no dia 8 de Março, tendo encontrado a resistência dos habitantes que ajudavam as parcas tropas portuguesas na defesa da vila limiana. 

Para impedir o avanço francês, foi destruído um dos arcos da ponte, o mais próximo de Arcozelo, tendo sido montada uma peça de artilharia na torre que existia junto da igreja de Santo António da Torre Velha, a uns metros do sitio onde escrevo estas linhas. A resistência foi tal que os franceses só dois dias depois é que conseguiram atravessar o rio, mas por Refoios. O arrabalde da Além da Ponte, em Arcozelo, pela resistência que colocou ao seu avanço, foi um dos mais devastados, quer pela artilharia francesa, montada nas Pereiras, quer, depois, pela ocupação das suas tropas.

O pároco de Arcozelo foi bastante explícito nos registos de óbito, descrevendo a sua causa como “morto pelos soldados franceses”. É o caso de Micaella, solteira, que morava no arrabalde de Além da Ponte. No seu registo de óbito, podemos ler que foi morta em casa pelos soldados franceses, a 9 de Abril, e que o seu cadáver foi jogado ao rio Lima pelos seu algozes. Encontramos também o registo de óbito de Gabriel Gomes, da Freiria, também na Além da Ponte, que, tendo sido morto em casa, foi sepultado no seu quintal. Noutro registo, o pároco sentiu-se na obrigação de registar o motivo pelo qual Antónia Luiza não ter recebido a extrema unção, sendo ele o de o general francês ter dado ordem para “matar todo o homem que nesta freguesia aparecesse”, pelo que o pároco não foi chamado para o serviço religioso.  

As topas francesas foram implacáveis, basta consultar os livros de óbitos das paróquias de Santa Maria dos Anjos (vila de Ponte de Lima) e de Santa Marinha de Arcozelo onde constam folhas e folhas de óbitos ocorridos entre os dias 8 e 12 devido à ocupação francesa. (Ver em em http://digitarq.advct.arquivos.pt/ os livros de Arcozelo na cota 3.12.4.18 e os livros de Santa Maria dos Anjos na cota 3.15.2.2)


Dizemos, presente


Porque temos de ter memória coletiva, porque não foi assim há tantas gerações que vivemos algo parecido, é bom perceber que a nossa comunidade limiana não fica indiferente às horríveis consequências da invasão russa da Ucrânia. Para além da recolha de bens, promovida pela associação Humanitária dos bombeiros de Ponte de Lima, que mobilizou centenas de limianos, a Santa Casa da Misericórdia, em articulação com a União das Misericórdias Portuguesas e com a colaboração do Município de Ponte de Lima, está a receber refugiados ucranianos. Saibamos, enquanto comunidade, recebe-los no nosso seio. 


Efeméride


Completam-se hoje, dia 23, 155 anos do nascimento do general Norton de Matos, um dos nossos melhores. Para comemorar, deixo a sugestão de pesquisarem na página web do Arquivo Municipal de Ponte de Lima, no fundo da Casa Norton de Matos, a subsecção sobre o “arquivo” do general.

domingo, março 20, 2022

Alto Minho, artigo de 16-03-2022

Transportes

Há uns meses escrevi sobre a necessidade de implementar uma rede de transportes no nosso distrito. Estranhava o silêncio sobre este assunto pela parte dos que se apresentavam a eleições, pois o movimento pendular dos que todos os dias têm de fazer quilómetros para se deslocar até ao local de trabalho é considerável e não existem alternativas, dignas desse nome, ao transporte particular. 

A subida estratosférica do preço dos combustíveis veio acentuar, ainda mais, o vazio das políticas de transporte em Portugal. Ouve-se o Secretário de Estado, a propósito das remediadas medidas que o governo irá implementar para minimizar o impacto da subida dos combustíveis, insistir que é preciso ter noção que o ISP - Imposto Sobre os produtos Petrolíferos - é a fonte de receita que permite ajudar os portugueses no uso dos transportes públicos. Os “portugueses”? Não, os portugueses não vivem só nas zonas metropolitanas das grandes cidades de Lisboa, Porto, Braga ou Coimbra. Quantos dos que fazem o favor de ler esta crónica sabem o horário dos transportes entre Arcos de Valdevez e Viana do Castelo, ou quantos comboios podem apanhar entre Valença e Viana do Castelo? No distrito, a movimentação pendular é enorme. Todos os dias milhares de alto-minhotos decolam-se quilómetros para trabalhar e para essa deslocação são obrigados a usar o transporte particular, porque os políticos não conseguem garantir a existência de uma política integrada de verdadeiros transporte públicos. Será agora que os nossos eleitos ficam consciencializados para este problema? 




Transparência


As reuniões das Assembleias, de Freguesia ou Municipais, são públicas. Pelos afazeres da vida, raros são os cidadãos que se deslocam para assistir, por vezes por horas, a essas reuniões. 

São, no entanto, cada vez mais as Assembleias que, apostando na transparência e abertura aos cidadãos, transmitem e disponibilizam online as suas reuniões. As redes sociais, o Youtube têm sido boas ferramentas para essa abertura que aproxima os eleitos dos eleitores. Veja-se o bom exemplo da Assembleia Municipal de Ponte de Lima que desde o mandato de 2009 disponibiliza online as suas reuniões, passando mesmo a transmitir, em direto, desde o mandato anterior. 

Infelizmente, nem todas as Assembleias têm essa abertura. Alguns responsáveis preferem camuflar-se em subterfúgios para não transmitirem nem tão pouco disponibilizarem online as reuniões. É caso para perguntar, o que será que procuram esconder?  


Experiência  


Quando se espera que haja vida e visitantes nos centros históricos, será necessário olhar para todos os pormenores. A Além da Ponte, bairro histórico na vila de Arcozelo, é um dos bairros do centro histórico de Ponte de Lima, do qual é parte integrante, onde mais gente vive. Tem no seu seio 5 valências ligadas à Câmara Municipal (jardins históricos, Museu do Brinquedo, Centro de Interpretação do Território, Estação do Tempo - Rota do Romano, Albergue dos Peregrinos), vários alojamentos locais, hotel e restaurantes premiados. Não é possível, nem compreensível que um alarme ligado às valências municipais toque durante uma semana várias vezes ao final da tarde e durante a noite. Será que esse alarme é o que queremos que os nossos visitantes levem como recordação do nosso centro histórico?

domingo, maio 02, 2021

Alto Minho, artigo de 28-04-2021

Memória


Recebi com satisfação a notícia de que o nome de Fernando Calheiros, antigo presidente da Câmara, irá integrar a toponímia de Ponte de Lima. Não li a proposta, mas tal decisão é, certamente, o reconhecimento do seu trabalho em prol do concelho limiano. 

Aparentemente, desta vez, os responsáveis políticos não caíram no ridículo de acusarem de extemporâneo por ser ano de eleições, nem caíram nas vãs acusações de populismo, como  fizeram em 2017, quando, volvido um ano do falecimento de João Abreu Lima, propus que o seu nome fosse integrado na toponímia limiana. 

Não sei se sentem o mesmo, mas cada vez mais me parece que há um tempo que desaparece rapidamente perante os nossos olhos. Um tempo de Homens políticos, muitos até vindos do outro regime, com um sentido de dever e serviço, que já não é fácil de encontrar.


Bicicletas


Sejam elas eléctricas ou tradicionais, o uso da bicicleta é algo cada vez mais presente na vida das cidades e vilas por esse mundo fora. Mesmo em cidades onde a tradição era outra, a bicicleta passou a ser a escolha sensata para deslocações urbanas. E por cá? Por cá gastam-se uns milhões em ciclovias periféricas, mas talvez falte o essencial, a promoção da utilização da bicicleta. 

Como o fazer? Desde logo nas escolas. Porque não copiar o que se faz em algumas escolas do Algarve que incentivam a utilização de bicicletas entre os estudantes? Sensibilizar os agrupamentos escolares, apoiando-os na logística de aparcamento, por exemplo, e, claro, apoiando a escolha da mobilidade sustentável, mesmo para quem não tem recursos. Vi, algures, um programa de uma escola algarvia onde se promovia a reutilização e recondicionamento de bicicletas. Um programa que promovia o transporte sustentável, a solidariedade e a reciclagem. Será que poderemos ver algo assim por cá? 


Centros históricos


Por vezes, caímos no erro de pensar que os nosso centros históricos sempre foram assim, como actualmente os conhecemos. Não é preciso recuar séculos, basta olhar para fotografias antigas dos álbuns das nossas famílias para verificar que essa premissa não é correcta. Olhem para o largo de Camões em Ponte de Lima, é um bom exemplo de evolução, a mutação do último século não obscureceu o passado, antes se adaptou aos tempos. 

Os centros históricos são, ou deveriam ser, elementos vivos. Preservando o passado, não podem ser, no entanto, redomas ou cápsulas do tempo. Estas acabam por afastar as pessoas, a vida começa a esvair-se e, sem nos darmos conta, o espaço fica deserto e degradado. Sei que é difícil, para alguns até poderá parecer sacrilégio, mas não se pode olhar para a renovação urbana dos centros históricos com preconceito, histerismo ou fundamentalismos. É necessário encontrar o equilíbrio entre a preservação e a funcionalidade, entre o antigo e o contemporâneo. Muitas das vezes não é fácil, no entanto é fundamental para a sobrevivência dos nossos centros históricos.   



Largo de Camões

Largo da Feira




terça-feira, janeiro 15, 2013

Artigo no Novo Panorama



 
Artigo publicado no Novo Panorama em 10-01-2013
 
Primeiro sábado do ano

O ano começou em festa aqui por Ponte de Lima. Desde o jogo que se realizou no início da tarde de sábado, dia 5 de Janeiro, passando pela apresentação do “obrigatório” e imperdível livro, de João Carlos Gonçalves, “Os Limianos” e a história do futebol em Ponte de Lima, acabando com o jantar dançante, com mais de 1000 pessoas, a comemoração dos 60 anos da Associação Desportiva “Os limianos” foi um verdadeiro hino ao clube do concelho, (sim, do concelho!).
Na emotiva apresentação do livro anteriormente mencionado, realizada por Franclim Sousa, vereador da cultura e desporto do município de Ponte de Lima, foi dito que, e cito de memória, “quase todas as famílias têm, no seu seio, alguém que passou pelo “Os Limianos””. É bem verdade, e é por isso que “Os Limianos” é um clube diferente, é um clube com uma história construída por pessoas de todo o concelho. É um clube agregador, como escrevi anteriormente, é o clube do concelho.  

Casas com história

Já algures escrevi que gosto de casas antigas. Todas elas têm uma história feita de várias histórias. Essas histórias foram as vidas que por lá passaram, são as vidas que por lá passam, que fazem com que essas casas ganhem um encanto especial.
É de apertar o coração verificar a quantidade de casas que em Ponte de Lima estão ao abandono, devolutas, moribundas. Estas situações são ainda mais custosas quando há memória da “vida” que por lá existiu.
A Câmara Municipal de Ponte de Lima tem vindo a adquirir, na zona urbana, alguns imóveis nessa situação. Mas esta é uma solução provisória, por norma a recuperação é interessante, as casas renascem com outra vida, com outra utilidade, mas a verdade é que o município não poderá adquirir todas as casas devolutas da zona urbana. É necessário envolver os privados, para, de alguma forma, multiplicar o exemplo vindo do município. São tempos de desafio, mas a vontade de voltar ao centro urbano existe, é já uma realidade em urbes maiores. Por cá, ainda que paulatinamente assiste-se a um pequeno movimento de retorno ao centro histórico.
Recentemente foi aprovado pela Câmara Municipal, “retificado” pela Assembleia Municipal, um incentivo ao arrendamento jovem no centro histórico, o “Centro Com Vida". É um bom passo no sentido certo, esperam-se outros para que juntos formem uma caminhada de retorno de “vida” às velhas casas que formam o nosso centro histórico. 

Boas notícias

Soubemos na passada semana que a Direcção-Geral do Património Cultural, após um parecer da secção do Património Arquitectónico e Arqueológico do Conselho Nacional de Cultura, irá propor à Secretaria de Estado da Cultura a classificação de alguns imóveis na ribeira Lima. Um deles será a Igreja Matriz de Ponte de Lima que deverá, finalmente, passar a ser classificada como monumento de interesse público.