O mundo ao contrário
Há um ressentimento cada vez maior pelas supostas elites, um sentimento exacerbado por líderes populistas sedentos de poder e de vontade de entrarem no sistema político, não para o melhorar, mas com a intenção, declarada, de o destruir a partir de dentro. Para isso, atacam os tribunais, os “partidos tradicionais”, e, claro, a imprensa que “está ao serviço de interesses ocultos”. Servem-se do descrédito das instituições democráticas, descrédito alimentado por mentiras, desvalorizando tudo e todos que os desmintam. Nisto, a extrema-esquerda woke e a extrema-direita são gémeos.
Recentemente, um dos partidos que se serve do expediente descrito anteriormente, confrontou os seus eleitores com a sua dura realidade. O líder convoca conferências de imprensa e produz vídeos para as redes sociais a gritar “vergonha”, ridiculariza eleitos de outros partidos e instituições, afirma, até, que existe o risco do Parlamento se tornar “uma casa de alterne do crime”. Mas eis que, qual tsunami de realidade, ficamos a saber que alguns dos protagonistas do partido, escolhidos pelo líder para ocuparem cargos políticos de relevo, demonstraram como seria se o eleitorado “sucumbisse”… ao seu apelo. Membros do partido, alguns até deputados da nação, são suspeitos e acusados de crimes como roubo, prostituição infantil, participação económica em negócio, ameaças físicas, etc. Sim, têm razão quando afirmam serem diferentes, são, mas para muito pior.
Recrutamento
A maioria das pessoas não pensam, nem nunca pensaram, em participar na vida política, pertencer a um partido, a um movimento, candidatar-se a uma eleição. Infelizmente, são cada vez mais os que, tendo participado, rapidamente se afastam. Não é fácil. Muitos pensam que quem por lá anda apenas o faz por interesse próprio (seja por benefícios sociais ou financeiros), mas a verdade é que a grande maioria que participa activamente na política, nos partidos, nos movimentos, o faz por convicção, sem ganhos, na maioria das vezes até com custos financeiros e pessoais.
É neste ambiente de afastamento que os partidos e movimentos têm a responsabilidade de atrair os melhores, nas artes, na cultura, na economia, na saúde, no ensino, nos mesteres. É difícil? Claro, mas, se não fizerem esse esforço, a degradação, como se vê, causará danos que poderão ser irreparáveis para a nossa democracia, para o nosso sistema político-social.
Lagoas