domingo, junho 07, 2026

Alto Minho, artigo de 03-06-2026

Tempo de festa

Por terras limianas, vivem-se dias de festa. Hoje, uma das maiores tradições de Ponte de Lima sai às ruas da vila que é mais antiga que Portugal. Ao final da tarde, milhares de pessoas percorrem as ruas históricas na “companhia” de um touro bravo.

O ritual, já referenciado no século XVI, exige três voltas obrigatórias à Igreja Matriz. Ali, naquele espaço curto, o touro dita as regras e desafia a audácia dos rapazes mais corajosos. Correm, fintam o perigo e, entre um trambolhão e um aplauso da multidão, cumprem um fado antigo que passa de pais para filhos.

Já no areal, ali mesmo ao lado do Rio Lima, o cenário muda. Naquela moldura natural, com as águas calmas a servir de fundo, o touro fica mais solto. Livres da claustrofobia das paredes de pedra, surge espaço para a brincadeira, para a provocação contida e para a comunhão festiva entre o homem e a força da natureza.

Quando o animal recolhe, a vila não adormece. Pelo contrário, desperta para outra noite longa. A música e a animação invadem os bares da zona histórica, estendendo-se madrugada fora.

É nessa mesma noite que ganha vida outra tradição, os tapetes floridos para a procissão do Corpo de Deus. Amanhã, a vila acordará com as ruas ornamentadas, fruto do trabalho noturno dos moradores. No final da tarde, esta procissão, a mais importante de todas, irá percorrer as artérias limianas com a solenidade própria de um acto público de fé.


Recordações que guardam vidas

Talvez esteja a ser influenciado pelas minhas actuais leituras (Joan Didion, por exemplo), mas tenho pensado em algumas pessoas que fizeram parte da minha vida.

Recentemente, lembrei-me do Márcio Patrício. Ninguém o chamava pelos seus dois nomes próprios, talvez apenas a sua mãe… e eu. Conheci o Márcio quando entrei no quinto ano da Escola Preparatória de Ponte de Lima. Devido à proximidade alfabética dos nomes, partilhámos, durante anos, a mesma carteira. Perante os padrões de hoje, poderíamos mesmo dizer que sofremos de "bullying". Por vezes, as crianças não sabem exprimir os seus sentimentos e isso influencia a forma como se relacionam com os seus colegas. Nem se dão conta da crueldade dos seus actos. Mas tudo isso ajudou a cimentar a nossa amizade. Foi, até por isso, que não partilhámos apenas a carteira da escola.

O Márcio Patrício era um aficionado das novas tecnologias, outro ponto que tínhamos em comum. Ele tinha, penso eu, um computador Amiga 500, já não me recordo bem, mas sei que as disquetes de 3,5 polegadas eram a entrada para o mundo dos jogos. Eram bem diferentes das cassetes que eu usava no meu Timex. Graficamente incomparáveis e de uma rapidez que faziam corar as velhas cassetes.

Partilhámos, ainda, os campos de basquetebol. Na EDL, jogámos no campeonato regional, ele como extremo-poste ou mesmo poste, eu como extremo-base. Ele muitas mais vezes titular que eu. Mas, no desporto, o melhor eram mesmo os jogos fora do pavilhão. Era na rua, junto à casa dele ou da minha, com os outros amigos, que os jogos ganhavam outra dimensão. Seria aquilo que hoje a própria Federação Portuguesa de Basquetebol tenta promover, o "Street Basket”, onde tentávamos imitar os nossos “ídolos” da NBA.

A vida, como sempre, vai fazendo o seu percurso. Infelizmente, a do Márcio Patrício foi curta, mas o suficiente para marcar a de outros, como a minha.