Não é fácil ser oposição
Passou um ano desde as tomadas de posse, um pouco por todos os concelhos, dos órgãos autárquicos eleitos nas últimas eleições. Normalmente, olha-se para os vencedores e faz-se balanços do que foi feito. Mas, em democracia, não existem apenas vencedores, os vencidos são tão importantes como os primeiros.
Há muitos anos, e durante muito tempo, tive intervenção política activa. Como dirigente partidário e membro de órgão autárquico, passei esse vasto período a “fazer” política na oposição. Vou partilhar um pouco dessa experiência, vista já com o olhar que só o afastamento e o tempo nos concedem.
Quando estamos nesse papel, temos vários factores que limitam a nossa acção e influenciam a nossa actuação. Por um lado, porque não há “poder”, as lutas internas agudizam-se. Como disse, em 1979, Francisco Sá Carneiro, citando Churchill, "os adversários estão lá fora, os inimigos estão cá dentro". Uma velha verdade que ainda hoje se constata em vários partidos, principalmente quando estão na oposição.
Imaginem que, em 50 anos, o partido que se encontra na oposição apenas sentiu a responsabilidade do poder, e de forma muito limitada e partilhada, em dois mandatos. Imaginem que, durante todos esses anos, quem venceu as eleições foi criando uma teia sólida e consolidada de conhecimentos, de interdependência e (porque não?) de interesses. O resultado foi a obtenção de uma maioria absoluta no executivo e na Assembleia Municipal que, com mais ou menos votos, se consolidou e robusteceu resultando em mais de 30 anos de poder absoluto. Rapidamente se percebe que quem assume as responsabilidades de liderar uma estrutura partidária na oposição, nesta situação, não tem um trabalho fácil.
Quando se chega à liderança, encontra-se a solidão. Aí há dois caminhos, ou se continua na solidão, ou a transformamos em solitude. Se optarmos pela primeira, acabamos por afastar os outros, bloqueados, sem capacidade estratégica, sem acção. Na solitude, podemos encontrar a paz para pensar, envolver os outros e traçar um plano para o que queremos levar a cabo.
Não trabalhando a tempo inteiro na política, estes líderes precisam de estudar os dossiês, aos quais nem sempre têm acesso, e de construir propostas que serão brutalmente atacadas e chumbadas pela maioria, não por serem inépcias, mas apenas e só por serem apresentadas pela “oposição”. É perceber que ser contactado constantemente, pela calada, por mensagens privadas, por eleitores que denunciam, que pedem para se ser mais activo, mais construtivo, mais duro nas intervenções, mais… não significa o seu apoio ou o seu voto. É que, “no final do dia”, este vai para quem acham que vai ter poder, e não para quem realmente reconhecem que o deveria ter. Ninguém gosta de ser associado à derrota e, quando não há perspectiva de poder, até os candidatos mais ferrenhos acabam por se afastar meses antes da entrega das listas.
Sobrevivendo a todo esse caminho, enfrentam-se, ainda, outros factores que a vida actual nos impõe. As pessoas já não se envolvem na política e, cada vez menos, no associativismo. É preciso ter muita força de vontade quando às reuniões ou acções políticas só aparecem meia dúzia de pessoas. Quando se dá conta, está-se a falar em circuito fechado.
O da oposição é, realmente, um “caminho das pedras”. Mas é um caminho indispensável num regime democrático, onde o debate de ideias deveria ser fundamental para o melhor desenvolvimento de soluções para os problemas da comunidade.
Também aos eleitos, que exercem o seu mandato na oposição, nós, os cidadãos, devemos agradecer pelo seu serviço. Haja coragem para quem o quer exercer.