domingo, abril 19, 2026

Alto Minho, artigo de 16-04-2026

O PDM 

Como principal instrumento de ordenamento do território, nenhum PDM está livre de críticas. O processo que decorre em Ponte de Lima não é excepção. Até o Presidente da Câmara, que percorreu as freguesias a explicar a proposta do novo Plano Director Municipal, criticou a lei que regula o PDM, afirmando que esta é prejudicial e que não se adequa ao território limiano. 

Um antigo presidente de Câmara, como muitos limianos (mais de 5000, pelo que li), também colocou reservas ao novo documento. Foi interessante ler as várias reações a esta posição tornada pública quase um mês depois de terminar o período de discussão publica. Entre outros pontos, o antigo presidente escreve sobre a necessidade de limitar a construção nas freguesias a reconstruções, recuperações e adaptações. Muitos dos que criticam a diminuta capacidade de construção nas aldeias do novo PDM louvaram a posição do antigo presidente de Câmara. Talvez empolgados pela adrenalina da crítica, não se aperceberam de que a posição defendida, embora mantendo a “paisagem herdada”, continuaria a promover o “desenraizamento” dos jovens casais “empurrados” para os novos bairros nas freguesias periféricas da vila limiana. Outros concordaram com o cuidado que se deve ter pelas margens do rio Lima, no entanto, muitos destes mantiveram-se silenciosos aquando da construção do edifício em betão no campo do Arnado, do edifício do restaurante e clube náutico, paredes meias com o rio, da estatuária espalhada pelas margens do rio, ou mesmo da construção de um açude que descaracterizou profundamente a fauna e flora do rio, na zona urbana limiana. A conhecida Mata da Aurora (Conde) é um belo terreno privado no centro da vila. Há uma forma de a preservar e até de a abrir ao público, a Câmara Municipal adquirir o terreno para esse fim. 

Neste momento, temos uma muralha de armazéns de serviços no perímetro urbano de Ponte de Lima e novos bairros de prédios, com poucos espaços públicos verdes, iguais aos de qualquer outra vila ou cidade. São o resultado de um processo iniciado em meados da década de 90 do século passado. Sim, os PDM’s devem “servir as gerações que ainda não nasceram, e não interesses imediatos ou particulares”.


Falta de noção


Há poucos dias, várias pessoas, de diferentes idades, deram o seu tempo em prol da comunidade e das suas tradições, levando para os caminhos, ruas e casas os Compassos Pascais. Num dia de festa comunitária, em que as famílias e os amigos se juntam, deixaram as suas famílias, logo pela manhã, percorrendo vários quilómetros até ser noite. Fizeram-no de forma voluntária, para que todos pudessem festejar. Mas eis que, algures, numa freguesia limiana, juntando-se os compassos pascais para o encerramento, ansiando pela oportunidade de ainda aproveitar algum tempo com a família, são surpreendidos por um momento surreal. Embora o ponto de encontro fosse uma capela, foram encaminhados para a sede da Junta de Freguesia, e, quando se aperceberam, eram figurantes da falta de noção de quem deveria saber mais. A palavra foi dada a alguém de fora da paróquia que, durante vários e longos minutos, foi divagando sobre a importância social dos seus convidados, ali presentes, e sobre factos históricos sem qualquer ligação à Páscoa.

Este momento só terminou porque um dos membros dos Compassos Pascais teve a coragem de, com urbanidade, verbalizar o que todos pensavam, que o que estava a acontecer não tinha nada a ver com o que os levara até ali. 

Na Bíblia, em Eclesiastes 3:1, podemos ler que "Tudo tem o seu tempo determinado, e há um tempo para cada propósito sob o céu." Há aqueles que, mesmo rodeados de livros, parecem ler pouco. Podiam começar pelo livro mais lido do mundo. 


Finalmente!


Ainda que no momento em que escrevo, não haja confirmação oficial das partes, a informação já corre na praça pública. O Presidente da Junta de Arcozelo desceu, finalmente, do pedestal onde se isolara. Ao aceitar as propostas da oposição, desbloqueia o funcionamento da maior freguesia do concelho de Ponte de Lima.

É lamentável que tenham sido necessários seis meses para um consenso que se resolvia numa semana. Faltou a humildade democrática exigível a quem governa sem maioria absoluta.

Agora, começa o verdadeiro trabalho. Não basta garantir o cumprimento do que foi acordado, é necessário assegurar que Arcozelo se liberta, definitivamente, das amarras que a têm mantido estagnada.