domingo, abril 26, 2026

Alto Minho, artigo de 23-04-2026

Não foi assim há tanto tempo

Recentemente, numa conversa entre amigos, demos conta de um facto curioso, a minha geração ainda conheceu pessoas nascidas no século XIX. A geração dos meus pais conviveu de perto com quem nasceu no último quartel desse século e terá conhecido, ainda que na infância, algumas nascidas no terceiro. Esta reflexão surgiu enquanto discutíamos o impacto das Invasões Francesas na nossa terra e como, apesar de o tempo histórico ser curto, esses eventos haviam caído, praticamente, no esquecimento da memória coletiva,.

Hoje, felizmente, há quem se dedique a avivar essa memória. Para compreender a dimensão do impacto local, basta, por exemplo, aceder à página web do Arquivo Distrital de Viana do Castelo e consultar os livros paroquiais de Arcozelo, em Ponte de Lima. É profundamente impactante ler, no livro de óbitos, os assentos que o vigário Manuel José Pereira do Lago lavrou em abril de 1809. Ali, descreve-se com crueza a violência das mortes provocadas pelos “soldados franceses”. São páginas e páginas que dão rosto e nome à tragédia.

É fundamental conhecermos a nossa história e criarmos espaços onde seja preservada. No entanto, espera-se que as iniciativas que vão surgindo sirvam esse propósito e nenhum outro. Numa época de excessivo protagonismo individual, convém recordar que os protagonistas são eles, os nossos antepassados. Nós somos apenas os guardiões da sua memória.


Hábitos 


É final da tarde. Percorro o jardim Dom Fernando, na cidade de Viana do Castelo, o sol brinda-nos com os seus raios e a sua posição já é em direcção ao mar. Embora a visão fique turva, não passa despercebido o movimento de bicicletas e trotinetas vindas do lado do Campo da Agonia. São trabalhadores, são mães com os filhos, que se dirigem para o centro histórico de Viana do Castelo, de regresso a casa. É interessante que, depois de vários anos a perder vida, o centro histórico da princesa do Lima volta a ter vida, volta a ter pessoas a regressar do trabalho, volta a ter vozes de crianças. Ah, e sem sensações ou percepções de insegurança. São famílias.

Muitos queixam-se da imigração, mas tem sido esta a manter a vida de muitos centros históricos. Muitos dividem-se em vários trabalhos, são assim os imigrantes em Portugal ou os portugueses que imigram. Atendem-nos nos cafés, limpam os serviços, conduzem os nossos autocarros. Sim, fazem parte do nosso quotidiano, e a sua maioria está integrada na comunidade. No final da rua, é recorrente ver um paquistanês ser abordado carinhosamente por idosos, daqueles “gauleses” que ainda partilham as nossas ruas e vivem no centro histórico. Falam com familiaridade, ultrapassando as barreiras linguísticas. Sim, o mundo que os separou à nascença é enorme, mas a vida, a humanidade do trato, juntou-os. 

A nossa capital de distrito, se é que esse estatuto ainda existe, já não definha. Já tem vida, já tem futuro.