domingo, julho 05, 2026

Alto Minho, artigo de 18-06-2026

O futuro da nossa memória colectiva

A segunda edição da Festa dos Arquivos provou que o nosso património documental não se mede em betão, mas em papel e identidade. Ver o distrito do Alto Minho mobilizado nesta semana cultural, a trabalhar em rede e a descentralizar o conhecimento, é um sinal claro de maturidade que merece o nosso maior aplauso. Os arquivos deixaram de ser depósitos poeirentos do passado para se afirmarem como pilares vivos da nossa cidadania e garantias do nosso futuro democrático.

De Arcos de Valdevez a Vila Nova de Cerveira, passando por Caminha, Melgaço, Paredes de Coura, Ponte de Lima, Valença e Viana do Castelo, as instituições uniram-se para abrir as portas à comunidade. Entre mostras, exposições, visitas guiadas aos bastidores da conservação e o lançamento de novos projectos digitais e audiovisuais, a região demonstrou uma dinâmica cultural invulgar.

Viver sem memória é perigoso, o desconhecimento do passado abre caminho a decisões futuras arriscadas. Conhecer as vidas que nos antecederam dá-nos as ferramentas necessárias para construir uma sociedade mais justa. Fica o repto para que visitem estes espaços, valorizem quem neles trabalha e contribuam para que continuem a ser os guardiões da memória viva do nosso Alto Minho.


O rio que nos vai deixando


Quem pertence às gerações que cresceram nas margens do Lima guarda na pele o bronzeado escuro daqueles Verões intermináveis. Bastava um boné na cabeça, a toalha ao pescoço e uma bicicleta BMX para encontrarmos a felicidade. O rio era o epicentro das férias grandes, o palco sagrado onde partilhávamos mergulhos e aventuras. Aprendemos a “ler” o Lima, a respeitar as suas águas e a contornar o capricho, qual maré, das descargas da barragem do Lindoso.

Hoje, a realidade já não permite isso e confronta-nos com uma urgência que não conhece fronteiras. Já se dão alguns passos no sentido certo. Parte da poluição que ameaça o ecossistema encontrou um travão judicial histórico na decisão do Supremo Tribunal de Espanha, onde se exige o fim da contaminação da pecuária intensiva desde a nascente, na Galiza, até ao Lindoso. Esta vitória jurídica demonstra que a despoluição exige firmeza contra quem, durante décadas, violou os direitos das populações e os limites da saúde pública.

Este ímpeto estende-se à sociedade civil. O recente I Congresso Ibérico do Rio Lima, organizado pelo MoLima na Escola Superior Agrária, veio deixar o alerta claro de que o «rio Lima não pode ficar esquecido, como ficou até agora». Recentemente, centenas de alunos uniram-se também na zona ribeirinha de Ponte de Lima para o tradicional “Abraço ao Rio Lima”, um gesto de apelo à responsabilidade que todos temos na defesa do património hídrico.

São, no entanto, necessárias decisões concretas. Essas cabem aos governantes locais que devem honrar o compromisso colectivo, sob pena de o nosso rio definhar até se transformar num postal sem vida.