domingo, setembro 13, 2026

Alto Minho, artigo de 10-03-2026

Feiras Novas

Atravessar a ponte velha nos dias das Feiras Novas, para além do banho de multidão, é um banho de humildade. Ali, naquele aperto, somos todos iguais, partilhamos todos a mesma sensação de pequenez do indivíduo face ao todo daqueles milhares de pessoas que atravessam a velha ponte medieval. 

Aos quinze anos, no sábado bem de manhã, atravessei a ponte sozinho, com botas alentejanas, em direcção ao São João. O objectivo era conseguir comprar um garrano. O meu avô bem que tinha prometido, mas a vida não o deixou cumprir a promessa de me comprar um “cavalinho”, mas eu, do alto da adolescência, com o dinheiro guardado dos aniversários, ia, certamente, conseguir realizar esse desejo e seria nesse sábado. Vi os contratadores de gado em acção, seu linguajar e trajar tão característicos, o bulido da compra e venda que nessa altura ainda ocorria na avenida de São João. Acabei por não  comprar o garrano, mas o caldo social, o barulho das pessoas a “marralhar” os preços, o cheiro dos animais, esses, nunca mais me deixaram. 

As Feiras Novas são todo um conjunto de vivências de situações características do povo que assume as ruas da vila de Ponte de Lima. São os espontâneos cantares à volta de uma concertina, o som das bandas de música no largo de Camões, os cortejos que representam as tradições das freguesias e a história do concelho, a “majestosa procissão”. São também os foguetes (agora com a ajuda de drones) que dão cor à noite, são ainda os dj`s na EXPOLIMA, o pão com chouriço e a animação dos bares, nas ruas e largos. As festas de Ponte de Lima parecem assumir o apoteótico encerramento das festas e romarias do Alto Minho. A palavra-chave que as define é “populares”, de todos para todos. 


É por isso…


As Feiras Novas servem para enaltecer o que de melhor existe no concelho, as suas tradições, os seus antigos e actuais ofícios, os seus trajes, a sua história, a sua religiosidade. 

Como podemos ler na Bíblia, em Eclesiastes 3, “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”, o tempo das Feiras Novas é “sagrado”, não é para ser usado em jogos políticos.


Será possível?


O Arquivo Distrital de Viana do Castelo partilhou o assento de batismo e a história de Domingos Rodrigues Alves. Um corneliano do século XIX, que aos 14 anos partiu, sem nada, para o Brasil, em busca de um futuro. Em terras de Vera Cruz, ultrapassou várias dificuldades até conseguir obter sucesso económico e social. O mais interessante da história de vida deste limiano foi a capacidade de colocar o seu sucesso ao serviço da educação dos filhos. A aposta resultou e de que maneira. O seu terceiro filho, Francisco, chegou ao mais alto lugar público do Brasil, tornando-se o seu quinto Presidente da República.

Hoje, a imigração é em sentido contrário. Nas nossas ruas, nos nossos comércios, nos nossos serviços, é agora natural ouvir o “português açucarado”. Muitos são descendentes dos portugueses que, entre o século XIX e meados do século XX, tal como Domingos, partiram com o sonho de alcançar um futuro no Brasil. Muitos conseguiram, a maioria nem por isso. 

Um filho de imigrante chegou ao mais alto cargo do país de acolhimento de seu pai. Será possível isso acontecer por cá?