Sentido de comunidade
Chega a altura das férias. Uns aproveitam para ter uns dias de praia, outros para saborear o doce e simples descanso e outros ainda para viagens culturais. Confesso que gosto dessas três opções. Um dos melhores momentos é sentar-me numa praça, numa longínqua cidade ou vila, e simplesmente observar quem se cruza comigo.
Há uns tempos, numa cidadezinha na Toscânia, estava eu imbuído nessa actividade, enquanto saboreava um gelado, quando reparei em algo que já não vejo há muito por cá. A noite chegava e, com ela, as famílias reuniram-se na praça principal. As crianças tomaram conta do espaço público com as suas brincadeiras, enquanto os adultos, sentados nos bancos públicos e esplanadas, conviviam.
Por lá as pessoas ainda se reúnem, partilham conversas enquanto bebem um café, e as crianças brincam, imaginem só, fisicamente, umas com as outras e sem a intervenção dos adultos. É a simplicidade de algo que eu vivi até ao início dos anos 90 e que agora parece desaparecido. O leitor ainda se lembra da última vez que saiu de casa, após o jantar, com o único objectivo de nada mais fazer do que sentar-se na praça ou no largo para simplesmente conviver com os seus vizinhos?
O desconforto do serviço
Recentemente, numa dessas conversas de café, lembrei-me de uma viagem que fiz à Cidade Eterna e de uma experiência que me ficou para sempre gravada na memória. Nessa viagem tive a oportunidade de visitar a capela pessoal e privada de João Paulo II no Vaticano, a “Redemptoris Mater” (1999). Os seus deslumbrantes mosaicos de estilo bizantino que revestem todas as paredes, concebidos sob a orientação teológica do próprio Papa, fazem com que, para muitos, esta seja considerada a "Capela Sistina moderna".
Há um pormenor, no entanto, que me marcou, a cadeira para o Pontífice. Ao contrário do que se possa pensar, não é confortável. Aliás, tem até pormenores desenhados para deixar o ocupante desconfortável. A ideia é que o Papa, ao sentar-se na “cadeira pontifícia”, recordasse que o lugar que ocupa não serve para o seu bem-estar, mas para o manter inquieto, ao serviço dos outros.
A opção por esta cadeira foi do próprio João Paulo II e deixou os responsáveis por projectar a capela desconcertados. Sim, quem está ao serviço dos outros nunca se deve sentir confortável nesse lugar. O conforto pode levar à inacção. Que exemplo.
(Faça um tour virtual, vale a pena: https://www.vatican.va/content/dam/vatican/virtualtour/redemptorismater/resources/tour-en.html)
Nota
O que retiro deste Mundial de Futebol é a consolidação da posição mais ingrata, a de guarda-redes. Foram eles os heróis em quase todos os jogos, mais ou menos experientes, mais ou menos conhecidos, foram decisivos. Vozinha, Pickford, Nyland, o nosso Diogo Costa (etc), quando se falar deste mundial serão os seus nomes a serem lembrados.